quarta-feira, fevereiro 14, 2007


a exaustão por vezes

A auto-estrada para o Algarve é uma longa linha recta. Choveu quase todo o caminho; às vezes uma luz branca substituia o tecto cinzento de nuvens. Horas e horas para pensar. E no regresso, já de noite, contra todas as expectativas, encontro - espanto-me ainda com a possibilidade da emoção, o standart na voz conhecida do piano, e sou eu outra vez inteira, ainda que por um momento apenas -
A exaustão por vezes faz tão bem

terça-feira, fevereiro 06, 2007

do less. add space.*



When you let things happen to you, life starts happenning too. So, allow giant gaps between appointements. Allow giant gaps in your life, because life is in the gaps.
How to be free, Tom Hodgkinson
*trouxe-o para aqui para não me esquecer.

domingo, fevereiro 04, 2007

any given sunday



Não sonhei: quando acordei comecei a viver no instante preciso em que adormecera.

A semana continuou a fechar-se enquanto lia as últimas quarenta páginas do livro (sempre com a estranha sensação de estar a ler uma carta que não me era dirigida) e depois - há algumas tréguas, no entanto, que cansam mais do que as lides.

sábado, fevereiro 03, 2007

whiskey

Já não tocava há muito tempo cá por casa: ontem ouvi a voz em "So tell the girls I'm back in town" mas foi algumas faixas depois que me lembrei - e soube pela primeira vez o que queria dizer - quando Jay-Jay Johanson canta, atrás dos beats (sim, atrás, não em primeiro plano, como tinha sido no início, nem cantarolando sem acompanhamento, antes ainda; atrás e quase como quem se apaga): but I'm older now, much older now than I was when I was young

quinta-feira, janeiro 25, 2007

life, now portable



Bilhete de avião, laptop, mchila; cabelo curto de andar; depois o carro, cada vez menos a casa.
Estou a querer a minha vida portátil.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

brilho no escuro

Não sei de onde vem, disse baixinho enquanto comentavam como estava bonita e luminosa (não é do cabelo, é mais uma coisa interior…)
Podia ser cruel e dizer – mas não disse – ou pode ser que eu engane ou que não me leiam; mas pode ser que a sedução seja afinal a minha casa; ou então que nem eu saiba bem o que sinto.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

(no) satisfaction



Um mês e meio é muito tempo para começar a gozar a viagem - preciso de satisfação imediata. Já tinha ameaçado, vou comprar uma mini-saia.

domingo, janeiro 07, 2007

is it working?


Le Visage de la Paix, P.Picasso

há muito tempo que não sonhava

O carro azul no meu caminho para casa - repetiu-se no sonho. Preparava-me para dormir, a casa outra, o quarto com portas largas, de vidro, para o interior e para o exterior, que fechava cuidadosamente isolando-me do mundo. Cortinas escuras sobre a transparência; e por uma pequena folga, um rosto de criança. Devia ter uns dois anos, pensei primeiro que era a Ana Rita mas quando abri a porta para que ela entrasse era eu - e agora que escrevo isto penso que é a versão mais simples e confiante de mim mesma a dizer-me para não fugir.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

therapy



começa a ser recorrente, ainda que não preocupante: quando começo a ficar triste compro um bilhete de avião.

terça-feira, janeiro 02, 2007

quarta-feira, novembro 15, 2006

M.A.


A luz podia ser como se fosse sempre Junho, se soubessemos editar assim os dias: cheios de pressa e sem tempos mortos (porque passeios solitários em longos corredores e por entre jardins nunca mataram ninguém - com a possível excepção de Rilke), com as músicas todas, iPods e sapatilhas; podíamos continuar de carro por uma estrada fora, sem nunca precisar de conversar; nem sequer era preciso uma história, porque afinal há tão poucas e são se calhar sempre as mesmas, era só mesmo uma luz amarela, como se fosse sempre Junho e cinco e meia da manhã

quarta-feira, novembro 08, 2006

desenvolvimento linear misto

Como nem tudo pode ser piano, também há que chegar ao trabalho: voltaram a mudar o percurso do autocarro. Durante os últimos meses entrava pela porta da frente (ou saía, dependendo do ponto de vista), com o último troço de Fernão Magalhães cheio de árvores. Verifiquei quotidianamente o amadurecimento do verde das árvores, nos últimos dias admirava-lhes os vermelhos; e ia seguindo o desenvolvimento das estações nessas centenas de metros. Regressei agora a Costa Cabral, estreito canal onde tudo acontece desde há séculos: conheço o suficiente da sua lógica para lhe apreciar a justaposição de tipo-morfologias, com o que não me conformo é com o tratamento e intensidade de uso que lhe é dado; com isso e com a falta que daqui em diante me farão as árvores.

terça-feira, novembro 07, 2006



Nem tudo pode ser tango: há também piano em frases surpreendentemente curtas e incisivas. (Será que é o que acontece quando esperamos algo de alguém?) Não fosse ter lido acerca das novas regras que Keith Jarrett se impôs a si mesmo nas apresentações a solo (regras ou liberdades, podemos discutir o assunto) e diria que era eu mesma a projectar-me no discurso, a lê-lo assim, directo e breve, sem demoradas e exaustivas explicações, haiku de sons emaranhados ou absolutamente dançáveis – porque afinal de contas por mais que falemos nunca conseguimos dar-nos a conhecer por completo. Horas e horas para chegarmos a isto: posso não reconhecer Pink Floyd quando os ouço mas pelo menos teremos sempre Keith Jarrett.

domingo, novembro 05, 2006

will I see you tonight


na voz obviamente enferrujada de Tom Waits, tango às quatro da manhã na sala no quarto nas paredes e sussurras-me a música ao ouvido,
so send me off to bed for ever more