sexta-feira, janeiro 12, 2007

brilho no escuro

Não sei de onde vem, disse baixinho enquanto comentavam como estava bonita e luminosa (não é do cabelo, é mais uma coisa interior…)
Podia ser cruel e dizer – mas não disse – ou pode ser que eu engane ou que não me leiam; mas pode ser que a sedução seja afinal a minha casa; ou então que nem eu saiba bem o que sinto.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

(no) satisfaction



Um mês e meio é muito tempo para começar a gozar a viagem - preciso de satisfação imediata. Já tinha ameaçado, vou comprar uma mini-saia.

domingo, janeiro 07, 2007

is it working?


Le Visage de la Paix, P.Picasso

há muito tempo que não sonhava

O carro azul no meu caminho para casa - repetiu-se no sonho. Preparava-me para dormir, a casa outra, o quarto com portas largas, de vidro, para o interior e para o exterior, que fechava cuidadosamente isolando-me do mundo. Cortinas escuras sobre a transparência; e por uma pequena folga, um rosto de criança. Devia ter uns dois anos, pensei primeiro que era a Ana Rita mas quando abri a porta para que ela entrasse era eu - e agora que escrevo isto penso que é a versão mais simples e confiante de mim mesma a dizer-me para não fugir.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

therapy



começa a ser recorrente, ainda que não preocupante: quando começo a ficar triste compro um bilhete de avião.

terça-feira, janeiro 02, 2007

quarta-feira, novembro 15, 2006

M.A.


A luz podia ser como se fosse sempre Junho, se soubessemos editar assim os dias: cheios de pressa e sem tempos mortos (porque passeios solitários em longos corredores e por entre jardins nunca mataram ninguém - com a possível excepção de Rilke), com as músicas todas, iPods e sapatilhas; podíamos continuar de carro por uma estrada fora, sem nunca precisar de conversar; nem sequer era preciso uma história, porque afinal há tão poucas e são se calhar sempre as mesmas, era só mesmo uma luz amarela, como se fosse sempre Junho e cinco e meia da manhã

quarta-feira, novembro 08, 2006

desenvolvimento linear misto

Como nem tudo pode ser piano, também há que chegar ao trabalho: voltaram a mudar o percurso do autocarro. Durante os últimos meses entrava pela porta da frente (ou saía, dependendo do ponto de vista), com o último troço de Fernão Magalhães cheio de árvores. Verifiquei quotidianamente o amadurecimento do verde das árvores, nos últimos dias admirava-lhes os vermelhos; e ia seguindo o desenvolvimento das estações nessas centenas de metros. Regressei agora a Costa Cabral, estreito canal onde tudo acontece desde há séculos: conheço o suficiente da sua lógica para lhe apreciar a justaposição de tipo-morfologias, com o que não me conformo é com o tratamento e intensidade de uso que lhe é dado; com isso e com a falta que daqui em diante me farão as árvores.

terça-feira, novembro 07, 2006



Nem tudo pode ser tango: há também piano em frases surpreendentemente curtas e incisivas. (Será que é o que acontece quando esperamos algo de alguém?) Não fosse ter lido acerca das novas regras que Keith Jarrett se impôs a si mesmo nas apresentações a solo (regras ou liberdades, podemos discutir o assunto) e diria que era eu mesma a projectar-me no discurso, a lê-lo assim, directo e breve, sem demoradas e exaustivas explicações, haiku de sons emaranhados ou absolutamente dançáveis – porque afinal de contas por mais que falemos nunca conseguimos dar-nos a conhecer por completo. Horas e horas para chegarmos a isto: posso não reconhecer Pink Floyd quando os ouço mas pelo menos teremos sempre Keith Jarrett.

domingo, novembro 05, 2006

will I see you tonight


na voz obviamente enferrujada de Tom Waits, tango às quatro da manhã na sala no quarto nas paredes e sussurras-me a música ao ouvido,
so send me off to bed for ever more

segunda-feira, outubro 30, 2006

if anyone needs to ask then I won't



Dezanove e quinze e casa cheia, m. sobe as escadas e falamos cinco minutos até chamarem o foyer à sala; encontramos C., colega de faculdade a quem não via há dois anos. Uma pergunta apenas (lançada sem aviso, é de notar) faz-nos apressar o passo quase sem resposta, faces coradas desmascaradas, e para distrair os sorrisos nervosos encho os tempos de palavras e das notas do barroco - tanta talha dourada só para fugir às perguntas difíceis, enquanto lá por cima nos sobrevoam os anjos papudos de Rafael, troçando.

sexta-feira, outubro 27, 2006

everything's different out here

passa a chuva passa a melancolia - já se adivinhava no céu de ontem, nuvens cor-de-rosa antes do céu ficar cada vez mais azul (hei-de procurar as fotos antigas que tinha), já se adivinhava no concerto que de barroco napolitano se transformou em tarantella (a Casa da Música repentinamente taberna), adivinhava-se na casa de ferragens, também ela tasca, aberta para lá das dez da noite, na luz no átrio do Museu Soares dos Reis; adivinhava-se em tua casa, à procura de pó nos armários, a imaginar puxadores nas gavetas, sem me lembrar sequer dos tempos em que me sentia redonda completa contentora serena mãe

quarta-feira, outubro 25, 2006

e tudo o que eu quero


All I Want Is You (Live from Slane Castle)

escolinha



É oficial: acabei de comprar mais um ano. Ou meio, ou um semestre. É oficial e sem desculpas, tudo pesado (o grau académico quase obsoleto, o tempo a faltar-me para o que mais quero, a razão não completamente definida) volto à escola por mais um ano em visitas esporádicas e breves até à prova final. Havemos de nos ver pouco por aí, já sei; e no fim há-de ter valido (ou não) a pena.

quinta-feira, outubro 19, 2006

yo @salamanca


Dois dias apenas em Salamanca (eram originalmente três) ou seja, noutro mundo: foi preciso passar a fronteira (a rede de telemóvel a estender-se pelo território dentro) para saber que havia gente fechada num teatro há dois dias; o céu azul foi sendo substituído pelo temporal, ao mesmo ritmo que os carros abrandavam atrás dos acidentes na auto-estrada. Ao fim do dia (a tarde passada em frente ao computador, como em outro dia qualquer) peguei no Andante e fui para casa, como se fizesse gestos que há muito não repetia.

quinta-feira, outubro 12, 2006

dias longos

Tenho tido dias longos, apesar do pôr do sol ser cada vez mais cedo. Na verdade, não tenho visto muito o sol, ultimamente. Uma comunicação (e três dias fora do escritório) dão nisto: chegar a casa todos os dias depois da meia-noite, umas horas de sono a menos, filmes a chegarem (e a saírem?) sem ter oportunidade de os ver e cinco minutos de vida pessoal despachados por telefone. Felizmente acabei a tempo a camisola, que dará jeito nas noites – parece-me que frias – de Salamanca.

quinta-feira, outubro 05, 2006


Eu podia, se quisesse, fingir que era outra; ou fingir que era outra a fingir que era eu.

de passagem


- É um filme bonito.
- É.. mas é...
- ...
- Digo-te amanhã.