terça-feira, novembro 07, 2006



Nem tudo pode ser tango: há também piano em frases surpreendentemente curtas e incisivas. (Será que é o que acontece quando esperamos algo de alguém?) Não fosse ter lido acerca das novas regras que Keith Jarrett se impôs a si mesmo nas apresentações a solo (regras ou liberdades, podemos discutir o assunto) e diria que era eu mesma a projectar-me no discurso, a lê-lo assim, directo e breve, sem demoradas e exaustivas explicações, haiku de sons emaranhados ou absolutamente dançáveis – porque afinal de contas por mais que falemos nunca conseguimos dar-nos a conhecer por completo. Horas e horas para chegarmos a isto: posso não reconhecer Pink Floyd quando os ouço mas pelo menos teremos sempre Keith Jarrett.

domingo, novembro 05, 2006

will I see you tonight


na voz obviamente enferrujada de Tom Waits, tango às quatro da manhã na sala no quarto nas paredes e sussurras-me a música ao ouvido,
so send me off to bed for ever more

segunda-feira, outubro 30, 2006

if anyone needs to ask then I won't



Dezanove e quinze e casa cheia, m. sobe as escadas e falamos cinco minutos até chamarem o foyer à sala; encontramos C., colega de faculdade a quem não via há dois anos. Uma pergunta apenas (lançada sem aviso, é de notar) faz-nos apressar o passo quase sem resposta, faces coradas desmascaradas, e para distrair os sorrisos nervosos encho os tempos de palavras e das notas do barroco - tanta talha dourada só para fugir às perguntas difíceis, enquanto lá por cima nos sobrevoam os anjos papudos de Rafael, troçando.

sexta-feira, outubro 27, 2006

everything's different out here

passa a chuva passa a melancolia - já se adivinhava no céu de ontem, nuvens cor-de-rosa antes do céu ficar cada vez mais azul (hei-de procurar as fotos antigas que tinha), já se adivinhava no concerto que de barroco napolitano se transformou em tarantella (a Casa da Música repentinamente taberna), adivinhava-se na casa de ferragens, também ela tasca, aberta para lá das dez da noite, na luz no átrio do Museu Soares dos Reis; adivinhava-se em tua casa, à procura de pó nos armários, a imaginar puxadores nas gavetas, sem me lembrar sequer dos tempos em que me sentia redonda completa contentora serena mãe

quarta-feira, outubro 25, 2006

e tudo o que eu quero


All I Want Is You (Live from Slane Castle)

escolinha



É oficial: acabei de comprar mais um ano. Ou meio, ou um semestre. É oficial e sem desculpas, tudo pesado (o grau académico quase obsoleto, o tempo a faltar-me para o que mais quero, a razão não completamente definida) volto à escola por mais um ano em visitas esporádicas e breves até à prova final. Havemos de nos ver pouco por aí, já sei; e no fim há-de ter valido (ou não) a pena.

quinta-feira, outubro 19, 2006

yo @salamanca


Dois dias apenas em Salamanca (eram originalmente três) ou seja, noutro mundo: foi preciso passar a fronteira (a rede de telemóvel a estender-se pelo território dentro) para saber que havia gente fechada num teatro há dois dias; o céu azul foi sendo substituído pelo temporal, ao mesmo ritmo que os carros abrandavam atrás dos acidentes na auto-estrada. Ao fim do dia (a tarde passada em frente ao computador, como em outro dia qualquer) peguei no Andante e fui para casa, como se fizesse gestos que há muito não repetia.

quinta-feira, outubro 12, 2006

dias longos

Tenho tido dias longos, apesar do pôr do sol ser cada vez mais cedo. Na verdade, não tenho visto muito o sol, ultimamente. Uma comunicação (e três dias fora do escritório) dão nisto: chegar a casa todos os dias depois da meia-noite, umas horas de sono a menos, filmes a chegarem (e a saírem?) sem ter oportunidade de os ver e cinco minutos de vida pessoal despachados por telefone. Felizmente acabei a tempo a camisola, que dará jeito nas noites – parece-me que frias – de Salamanca.

quinta-feira, outubro 05, 2006


Eu podia, se quisesse, fingir que era outra; ou fingir que era outra a fingir que era eu.

de passagem


- É um filme bonito.
- É.. mas é...
- ...
- Digo-te amanhã.

domingo, setembro 24, 2006

fall (to)

E para celebrar a entrada da estação, que se anunciou sem cerimónias, passei o fim de semana a chá e antibióticos. Há que ser indulgente com os caprichos do tempo.

fall

Outono em pleno, o que quer dizer antes de mais, que a noite ganha terreno. Começo a preparar-me: mangas da camisola quase prontas, a roupa mais quente à mão. Pelas frinchas das janelas continua a passar o vento. Algo me diz, porém, que o Inverno não será tão frio nem escuro este ano.

domingo, setembro 17, 2006

em tua casa sonho mais

Ficava acordada durante horas, sem outro aparente motivo que não fosse a respiração ao meu lado. Sonhava quase invariavelmente com quartos, com o sono que me escapava; levantava-me para fechar a janela, talvez fosse o contínuo zumbir na auto-estrada que não me deixasse dormir.
Agora a inquietação desce como a temperatura em Setembro.

domingo, setembro 10, 2006

when in rome



Duas semanas, que foram até agora uma espécie de prolongamento do intervalo. Não é a primeira vez que o sinto: o mais simples é retomar as responsabilidades do trabalho, equilibrar o tempo que resta é que tem qualquer coisa de arte. Peguei de novo nas agulhas, aprendi quase todas as regras do ténis (muito embora seja muito mais divertido de ver na televisão do que futebol, os comentadores são igualmente inanes) e já corro vinte e cinco minutos seguidos.
Só agora sinto que daqui em diante é que vai ser a sério.

segunda-feira, agosto 21, 2006


- E Amesterdam?
- Acabou em Madrid, uma caña na Calle de Cavas Bajas feita discoteca depois de prestadas as devidas homenagens à Plaza Mayor, meia noite e trinta graus. Tinha acordado com chuva, o céu carregado a manhã toda. Mas ao levantarmos o avião sobrevoou ainda Amesterdão, e já nao chovia. Não foi muito tempo: dez, quinze segundos a vê-la de cima até entrarmos nas nuvens; uma bela maneira de me despedir.
- De que gostaste mais?
- Da minha bicicleta.

sexta-feira, agosto 04, 2006

segundas, quartas e sextas

A partir de hoje não estarei ocupada segundas, quartas e sextas das sete às oito e vinte.
Ao fim de oito anos parecerá talvez estranho; se não tanto agora. Pelo menos em Setembro, quando regressar às rotinas. Foram estas horas que me tornaram (quase) irreconhecível (agora eu digo: «sou tão simples»; e tu respondes: «nunca pensei ouvir-te dizer-te isso»). As despedidas de hoje marcam tanto o fim de uma era como o início de qualquer coisa; entretanto faltam apenas dois dias para a minha viagem, espécie de lua-de-mel comigo mesma.