segunda-feira, maio 29, 2006

rol de um dia feliz

- acordar cedo para descer o rio, sol a pino temperado por quedas e rápidos;
- (umas sandálias novas compradas em segredo por uma conspiração de colegas);
- preguiça ao fim da tarde depois de horas de esforço físico;
- uma mensagem tua, doze minutos antes da meia-noite.

terça-feira, maio 16, 2006

É assim que sabemos que estamos vivos: não compreendemos.
Philip Roth, Pastoral Americana

domingo, maio 14, 2006



É claro que aquele grãozinho virulento iria perder aos poucos a potência, iria desvanecer-se, dissolver-se em nada, ou antes, iria transforma-se numaporção de tecido identificável mas inofensiva. Neste momento, porém, bastaria uma ligeira alteração nas partículas que determinam os acontecimentos para que ela se achasse longe dali (...)


Iris Murdoch, O Bom Aprendiz

sexta-feira, maio 12, 2006

Aparentemente nada mudou: só um deslocamento súbito do eixo em torno do qual o mundo gira. Solavanco e tempo de habituação – que continua. Tinha esquecido que as palavras são gestos feitos à distância e lembraste-mo como se devolvesses a minha imagem num espelho.

sábado, abril 22, 2006



Por vezes passa o dia inteiro sem comer. Preocupo-me - o jejum lembra-me o tempo em que brincava com traços brancos sob a pele. Perguntei-lhe se achava que era Sarah Morton. Disse-me que não, sabia perfeitamente quem era. Perguntei-lhe se imaginava que a frugalidade a tornaria capaz de voar. Sorriu. A partir de então, nesses dias, passei a verificar as janelas.

again and again and again

terça-feira, abril 18, 2006

green



Não é de mim nem de agora: a cidade tem uma cor nova, acabada de nascer. É o verde mais primaveril de que me lembro; mas pode ser a memória a enganar-me, depois de um ano de seca. Espero que o próximo fim de semana permita os meus passeios; entretanto vou amanhã ao Algarve e já volto. Até já.

sexta-feira, abril 07, 2006

postal ilustrado

Estou aqui há dois dias, se calhar chego antes deste postal. Mas como estou longe tenho um pretexto para escrever as coisas que não tenho oportunidade de te dizer quando aí estou – e não ter oportunidade de as dizer é já sintoma bastante. A distância ajuda e a síntese a que o tamanho do postal me obriga também. Há uma divisão entre a razão e os afectos que não me deixa ser clara; há desejos a turvarem tudo. Quis agir como se eles não existissem, mas não parece possível; não é fácil gerir o que tem acontecido – se é que se pode considerar a distância um acontecimento. Fica tudo dito no espaço que tenho – que sinto ser cada vez menos – e não espero que me dês resposta. Não espero que faças seja o que for – embora, e que fique bem claro, o deseje profundamente.
Post-scriptum: cortei o cabelo.

sábado, abril 01, 2006

bittersweet

Felizes encontros inesperados:
sinto os olhos manchados do cansaço e da falta de sono. Na véspera tudo em mim era tensão cromática - laranja e azul eléctrico.
Ao afastar-me do primeiro o sorriso deu lugar à incerteza; no segundo o meu silêncio ocupou o lugar do contentamento. «Quando é a nossa opaca presença física a estabelecer o contacto...» Entretanto descubro no espelho que passei alheada a muitos outros encontros inesperados. Dizem-me que tenho os olhos grandes e afinal descubro que só os uso para fitar - ao longe.

segunda-feira, março 27, 2006

ilusão

(do Lat. illusione)
s. f.,
engano dos sentidos ou da inteligência;
errada interpretação de um facto;
pensamento quimérico;
coisa efémera;
utopia;
fantasia;
efeito artístico que produz ou procura produzir a impressão da realidade.

mudaram a cor aos dias

o que significa que vem aí o tempo dos vestidos, o sol enganador a criar quimeras e a fazer crer que tudo, mas tudo, é possível; não me engano, a Primavera tem este hábito de me derrubar sem compaixão. Pode andar escondida em cinzentos que eu conheço-lhe já os truques, sei o que anuncia, e até Setembro ou Outubro andarei seduzida pela efémera beleza das ilusões.