sábado, abril 01, 2006

bittersweet

Felizes encontros inesperados:
sinto os olhos manchados do cansaço e da falta de sono. Na véspera tudo em mim era tensão cromática - laranja e azul eléctrico.
Ao afastar-me do primeiro o sorriso deu lugar à incerteza; no segundo o meu silêncio ocupou o lugar do contentamento. «Quando é a nossa opaca presença física a estabelecer o contacto...» Entretanto descubro no espelho que passei alheada a muitos outros encontros inesperados. Dizem-me que tenho os olhos grandes e afinal descubro que só os uso para fitar - ao longe.

segunda-feira, março 27, 2006

ilusão

(do Lat. illusione)
s. f.,
engano dos sentidos ou da inteligência;
errada interpretação de um facto;
pensamento quimérico;
coisa efémera;
utopia;
fantasia;
efeito artístico que produz ou procura produzir a impressão da realidade.

mudaram a cor aos dias

o que significa que vem aí o tempo dos vestidos, o sol enganador a criar quimeras e a fazer crer que tudo, mas tudo, é possível; não me engano, a Primavera tem este hábito de me derrubar sem compaixão. Pode andar escondida em cinzentos que eu conheço-lhe já os truques, sei o que anuncia, e até Setembro ou Outubro andarei seduzida pela efémera beleza das ilusões.

terça-feira, março 14, 2006

domingo, março 12, 2006

Beware the ides of March*



As minhas deambulações levaram-me hoje à rua onde fui, há semanas atrás, ver uma casa. A rua estava calma (é uma rua calma, com árvores, embora estas não atinjam o troço onde se localiza o prédio), pouca gente se via passar. Ao fundo, a Praça das Flores; bem perto, as vendedoras de flores à porta do Prado do Repouso. Com o sol, que devia inundar os quartos virados a Poente, todas as outras coisas recuaram em importância: as obras, o tempo necessário para elas (que não sei quanto possa ser), a idade do prédio. Os dias de sol são perigosos, fazem-nos esquecer as prudências.

*Citação de Júlio César, da crónica de João Bérnard da Costa, no Público de hoje

terça-feira, março 07, 2006

ter razão


(pequeno ensaio sobre a democracia depois de "Good Night, and Good Luck")

O que mais me impressionou no filme não foi a reconstituição milimétrica, a filmagem sempre em set, a saturação de jazz (mas não te preocupes - não era um musical), ou sequer a inteligente utilização das "verdadeiras" imagens televisivas (como se tudo não fosse ficção); nem as múltiplas leituras do filme, desde o medo a condenar direitos que se consideram inalienáveis à derrocada da caixa que mudou o mundo; não foi o olhar de David Strathairn ou a forma como dizia a frase final (e que não consegui perceber se de um pessimismo ou optimismo desesperado); o que mais me impressionou e chocou foi que no fim, até um homem como William Paley, que não abandonou Murrow durante o confronto com o Senador Junior de Winsconsin, se rendeu à força mole do desejo de entretenimento e das audiências. É o que mais me assusta - que a maioria das pessoas acabe então por ter razão.

domingo, fevereiro 26, 2006

:D

Esta semana passou tão rapidamente que não me deixou tempo sequer de vir contar as boas notícias.
As boas notícias têm a ver com um quadro. Não uma tela, nada de físico; é a diferença entre poder estar doente ou não. Entre poder ser dispensada no dia seguinte ou não. E, eventualmente, entre poder ter um empréstimo para a tal casa - ou não. Para todos os efeitos, a partir de Fevereiro sou efectiva na empresa, tenho direito a subsídios de refeição, a horas extraordinárias, a férias. Não tenho que me lembrar todos os meses de pagar a segurança social. Posso deixar os recibos verdes na gaveta. Por tudo o que isso significa - e pelo que diz da forma como o meu trbalho está a ser recebido - o título, ali em cima, justifica-se em absoluto.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

spt


"cotton underware that has been washed a thousand times..."
(Nick Hornby, High Fidelity)

domingo, fevereiro 12, 2006

se calhar tens saudades das magnólias

corners of my home



Não é bem um canto (que em minha casa quase não os há), mas antes um lugar onde a luz cai. Pelo menos agora, que os dias começam a conhecer-se e o sol a passear num ângulo mais alto, e a sala deixa de ter a melancolia das tardes de inverno. Quase não sinto a urgência de encontrar outra casa.

Other corners here

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

uma casa



Procurar uma casa é tarefa demorada; já o sabia e esse desgaste era uma das maiores resistências quando chegava a hora de tomar a decisão. Ainda agora comecei e já questiono a minha persistência: mesmo com todos os filtros do mundo as visitas acabam sempre em grandes desilusões. Só uma me interessou a ponto de ter que apelar a toda a minha racionalidade para não a comprar: era um sexto andar na Rua da Boavista, sem vizinhos e com muito sol. Tinha a cozinha num armário. Outra pela qual quase me apaixonei (e apenas em fotografia): um mezzanino a fazer de quarto, um terraço, uma clarabóia enorme. Era uma casa, casa mesmo, com solo debaixo de mim, não uma fracção. Está reservada e esforço-me por lhe elencar os defeitos: três metros e meio de largura, pouco mais de 50 de área. Ainda sim consigo perceber o que me move: a luz.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

árvores


No caminho para o trabalho há apenas uma magnólia tardia; tenho perdido o fulgor das árvores. Contento-te com as camélias frágeis a enfeitar os topos dos muros e com as manhãs de domingo pelas ruas mais bonitas do Porto, até erguer os olhos e ficar - uma vez mais - assombrada pala estranha beleza das grandes flores brancas nos ramos nus.

domingo, fevereiro 05, 2006

domingo



Luz e sombra, os caminhos de Serralves quase vazios. (Nos ouvidos: Forbidden Colours, Sakamoto). Entre Thomas Hirschhorn e Ignasi Aballí vai um mundo de distância, medido pela quantidade de objectos. Nos jardins reencontro Ângelo de Sousa, e acabo por não fazer a via sacra de Richard Serra para te encontrar à entrada. O resto - é sol.




sexta-feira, fevereiro 03, 2006

hábitos

Apanhada pela Sónia em cinco hábitos estranhos:
- comer massa crua;
- arrumar a louça na banca ANTES de a lavar;
- ficar meia hora na cama antes de me levantar. Isto obriga-me a pôr o despertador um bocado mais cedo do que o absolutamente necessário; para não estar a desligá-lo de nove em nove minutos passei a usar a versão rádio (e a ligar o despertador no telemóvel). O cúmulo disto é que já cheguei a ouvir uma missa quase inteira antes de estender o braço para desligar a coisa;
- escrever um monte de coisas na agenda do género "ir ao supermercado" ou "passar roupa" (a lista de supermercado escrevo-a noutro caderno). Só pode significar que sou ou muito distraída ou muito preguiçosa - depois de ver o ponto anterior, acho que deve ser mesmo preguiça;
- ir para a cama às onze da noite (e no inverno, com uma botija de água quente).

Continua:
Aurelia
Saudades do Futuro
Uma vida por escrever
Livro em Flor
Tricot e tal