quinta-feira, outubro 06, 2005

a volta ao mundo em azulejos (2)

Tinha entrado no Metro no Marquês, saí em São Bento.

Aqui as cores são diferentes: é a única estação onde isso acontece. As letras com o nome da estação são também em azulejo, e não em aço; e quando se sobe pelas escadas rolantes não vale a pena pensar que o vandalismo já começou: não são riscos, são desenhos de Álvaro Siza que apenas de longe se decifram. Outros desenhos são quase segredos: um azulejo apenas, procura-se em cada pilar.

E já que estava em São Bento subi a outra estação: é que nunca tinha fotografado nenhum dos azulejos do átrio.

domingo, outubro 02, 2005

a volta ao mundo em azulejos (1)

Comecei a fotografar azulejos para este grupo do Flickr; a volta ao mundo veio depois. (Mundo, que é como quem diz, os sítios por onde passo de máquina fotográfica na mão.)

Hoje levei a máquina ao Marquês, lugar ainda ocupado pelas redes e tapumes dos trabalhos do Metro. O jardim está intransitável há anos, mas as casas continuam lá, à espera de fotografias.

O Porto é uma óptima cidade para fotografar azulejos; as famosas "casas do século XIX", com as suas estruturas de madeira e fachadas de granito, usavam quase sempre o azulejo como revestimento. É claro que a proliferação de lojas no piso térreo destrui grande parte dos panos de azulejo existentes; mas por vezes ainda se encontram algumas raridades, seja pelas cores, pela utilização de relevos ou simplesmente pelo desenho.


No Marquês não há nenhuma casa que se destaque pela riqueza da cor dos azulejos: verdes e vermelhos, sobretudo. São azulejos rectangulares, com as arestas chanfradas; parece um pormenor sem importância mas na verdade faz toda a diferença.

A arquitectura moderna no Porto soube usar o azulejo; um dos edifícios da Praça (ainda não consegui descobrir a autoria, mas pela estátua na fachada deverá ser de Viana de Lima ou de algum discípulo) utiliza-o, de uma forma bem diferente, claro...

E é claro que a viagem ao Marquês não podia terminar de outra forma senão com uma descida ao subsolo: a novíssima estação de Metro, com os já habituais azulejos que ninguém consegue nomear a cor...

domingo, setembro 25, 2005

dedicação

s.f. acto ou efeito de dedicar ou dedicar-se; afecto extremo; devoção; adesão; qualidade de quem se dedica; dedicatória; consagração; entrega.

sexta-feira, setembro 23, 2005

recomendações de setembro

Procurar as palavras, as frases justas: às coisas, aos afectos, à importância real que têm. Evitar a sobrevalorização do que quer que seja. Evitar a estridência. Não ter medo de não ser ouvida; quando o que conta é o volume, acaba-se num jogo de soma nula; nenhum acto é sustentável. Não recear dizer o que se sente; o que é justo não esconde, como não inflaciona.

quarta-feira, setembro 21, 2005

my crafty family (4)



A minha mãe bordou, o meu pai escreveu as quadras; e este lenço de namorados vai para o Quilt for Katrina...

quarta-feira, setembro 14, 2005

de tanto bater o meu coração parou

e o meu silêncio no regresso confirmava o receio
é já setembro e aparentemente movo-me, o quotidiano instalou-se já, parte dos projectos avança, algumas mudanças já
e no entanto sinto que parte de mim se resguarda e não se move
como se receasse que o coração batesse demais

sábado, setembro 03, 2005


O início de Setembro é sempre assim: vazio, chuvoso, cinzento. É preciso sempre um dia ou dois para saber que o Verão acabou, independentemente do calor que ainda reste. Os dias, que já começaram desde há muito a ser mais curtos, em breve serão uma sucessão de tarefas e trabalhos. Muita noite, que é quando o tempo livre se encontra.

segunda-feira, agosto 22, 2005

dolls


Acabei ontem estes bonecos para levar para a Joana; mas a minha mãe pôs-se a olhar tanto para eles que resolvi fazer-lhe uns gémeos... Por isso vou ter que me agarrar às agulhas.

domingo, agosto 21, 2005

my crafty family (3)


A história dos barcos na família vem de trás; o mar foi smpre ganha-pão na terra onde nasci, e de ambos os lados da família, até à minha geração, há gente de mar. O meu começou a fazer barcos em garrafas com o meu avô - pai da minha mãe - e este aprendeu mais ou menos sozinho. Lembro-me de ir com ele ao Museu ver o exemplar que lá havia; lembro-me de haver um tio-avô distante que os fazia, mas já não sei quem pudesse ser. O primeiro barco ficou pronto ao fim de uns meses, mas teve que ser colocado numa garrafa de ginja, com um gargalo excepcionalmente grande. Ao fim de uns anos, o avô fazia-os em 28 horas... e com uma precisão muito distante daquela que o primeiro deixa adivinhar. Em Ílhavo havia uma Escola de Artesanato, onde eu passava as tardes com os meus avós. A avó Tina experimentava várias cisas, desde as estatuetas de barro à renda de bilros; e eu, arrumados os cadernos, trabalhava também.

A Escola de Artesanato fechou ao fim de alguns anos. Era um projecto interessante, embora na altura tivesse poucas pessoas a trabalhar, ainda menos a aprender. Será que agora poderia ter um outro fim?

sexta-feira, agosto 19, 2005

my crafty family (2)


O meu pai também andou na Escola Industrial. Orgulhosamente intitula-se "serralheiro", e sempre tirou partido dessa formação de base. (Por exemplo, os portões da casa dos meus pais foram feitos por ele...) Há muito tempo que a garagem se transformou num misto de armazém e oficina; de há uns anos para cá, os espaços de trabalho têm invadido a casa, para desespero da minha mãe. Sai de tudo um pouco das bancadas do meu pai; mas brinquedos e barcos são a maioria. Os barcos vêm da tradição familiar: não só os da Ria, mas os da pesca. Era um trabalho a que se dedicaram muitos marinheiros quando o tempo não lhes permitia pescar. Mas essa é uma outra história...

quarta-feira, agosto 17, 2005

my crafty family (1)


A minha mãe andou na Escola Industrial, onde aprendeu uma série de trabalhos manuais, considerados imprescindíveis para uma dona de casa da altura. E eu sempre a vi a fazer qualquer coisa: camisolas para nós, bordados, crochet... Foi ela que me ensinou a tricotar, que me guiou pelas minhas primeiras camisolas, e que sempre incentivou as minhas incursões pelos bordados.
Começou a fazer bonecos de pano para os meus sobrinhos, e nsso é um pouco como eu: como não tem um omínio completo das questões técnicas, primeiro tenta ser fiel ao modelo, e só depois introduz alterações. Como neste boneco, por exemplo...

terça-feira, agosto 16, 2005

Craftismos

Uma surpresa no Jornal da Tarde de hoje: Poeiras, Trapos e Farrapos e o até agora desconhecida para mim Vento na Praia. Continuo sem saber muito bem o que chamar ao fenómeno crafty: desempregadas qualificadas é que não me parece um bom subtítulo para a reportagem. Mesmo que ache que a criação de peças de autoria, aproveitando o know-how das nossas avós e refazendo o design, pode ser uma boa solução para algum desemprego, acho que é muito mais do que isso. Tem a ver com um cada vez maior distanciamento em realação aos produtos em série que nos oferecem, mas reduzir tudo a uma crítica anti-globalização, ou alter-globalização, também não chega. Assim como não chega dizer que é gratificante ver sair das nossas mãos qualquer coisa de concreto...
Penso que há, sobretudo, um fenómeno de divulgação como nunca houve; divulgação e comunicação, permitindo, como em tantos outros campos, uma inovação e multiplicação muito mais rápida. Mas, na verdade, desde quando é que as mulheres (e, já agora, os homens) se dedicam, com maior ou menor criatividade, a fazer objectos com as suas próprias mãos? Basta olhar com um pouco menos de preconceito para tudo o que as nossas mães e avós fizeram: bordados, camisolas, roupa, bonecas. My crafty family é sobre isso; espero conseguir publcar algumas fotos de família que expliquem melhor de onde venho.

felting


Finalmente uma experiência de feltragem que correu realmente bem - apesar do susto que a minha mãe apanhou quando tirou o trapo da máquina.

segunda-feira, agosto 15, 2005

baking


Raivas (receita dos cadernos da avó Tina)
750 g de farinha
375 g de açucar
6 ovos
90 g de manteiga
canela q.b.
sal
Tira-se uma gema aos seis ovos. Amassa-se tudo, juntando mais farinha até a masa não colar. Fazem-se rolinhos e juntam-se da forma que se quiser. Vai ao forno quente.



Eu ainda junto raspa de um limão. Mas esse é o meu ingrediente secreto...

domingo, agosto 14, 2005

life goes on


No primeiro dia de férias acordei antes das oito da manhã, tricotei uma flor ao pequeno almoço, acabei um novelo em mais um mini FMB, acabei a manga deste wrap, e ainda li umas páginas do guia de Londres.
E hoje, novidades de Helsínquia.

quarta-feira, agosto 10, 2005

bentevi*

Devia ter uns seis ou oito anos; fiz uma asneira de que já não me lembro e, para escapar ao castigo, fugi. Meti-me num comboio à socapa; ia saindo em várias estações para fintar os revisores, retomando a marcha sempre para sul. Foi assim que chegeui ao Algarve. Mas a fome, que ia sendo enganada durante a viagem com a ajuda dos farníes de alguns companheiros, começou a apertar; e resolvi-me a tomar um emprego. A oportunidade surgiu num botequim onde espreitava alguma sobra: um cego, desses que pedem na rua, estava encostado ao balcão, à espera do seu copo de tinto. Reparei que o dono não lhe enchia o copo; e segredei-lhe baixinho: O copo não está cheio! Ele então falou bem alto: Ó senhor! Então quer enganar um cego? Porque não me enche o copo? O dono aproximou-se, e enquanto abria a garrafa disse-lhe que de cego ele tinha pouco. É que há coisas, senhor, que até os cegos vêem!
Tornei-me então moço de cego. Fazia os recados, contava o dinheiro, vivia na rua. Como não quis dizer o meu verdadeiro nome, quando ele me perguntou como me chamava respondi: Bentevi. Já viste uma coisa destas? Tu chamas-te Bentevi; e eu não te posso ver!.
A vida como moço de cego era dura, e eu começava a sentir saudades de casa. Talvez a minha falta não tivesse sido assim tão grave; talvez o castigo fosse mais suave do que a fuga. Comecei então a urdir um plano para me escapar; para além de ir juntando algumas moedas, precisava ainda de me livrar do cego, que nunca me deixava ir para longe.
O plano ganhou asas num domingo, enquanto assistíamos à missa. De tempos a tempos, o meu protector chamava:
- Bentevi!
- Senhor!
- Deixa-te ficar aí.
A certa altura afastei-me, enquanto no púlpito o padre falava dos milagres da igreja. Fiquei junto à porta, pronto a voltar atrás a qualquer momento. Mais uma vez ele deve ter dito: Bentevi!, porque comecei a vê-lo a ficar cada vez mais inquieto com a falta de resposta; até que começou a chamar cada vez mais alto. Bradava já o meu nome, Bentevi!, Bentevi! Ao seu lado, maravilhadas, as beatas ajoelharam:
- Milagre, milagre, o cego vê!

*esta história é dedicada ao meu avô, a quem a ouvi muitas vezes; era a única pessoa neste mundo que me chamava minha flor.

sábado, agosto 06, 2005

boas férias

Eu ainda fico por cá mais uma semana.

não havia minúsculas,

e eu queria pensar que foi por isso que a mensagem me intrigou.
"longe vai o tempo em que não terias dúvidas".
a medida do meu afastamento é que o meu desejo estava longe de o nomear. "Maneirista e tiquenta esta coisa das minúsculas, não?")
mudei-lhe o pronome pessoal e passei a dizer: ele. não são apenas as pessoas que são trituradas no tempo, ao que parece, os sentimentos também. e acabei a noite triste, por não ter novas de helsínquia.

quinta-feira, julho 28, 2005

E o pior é que eu sei mesmo o que é que ela quer dizer. E ainda faltam duas semanas para as férias...

Mini FMB



Estava a fazer este mini saco para oferecer à Winkiemoon, e dei-me conta de que faltam apenas cinco meses até ao Natal. Cinco! Não vou conseguir ricotar as prendas todas que queria!

terça-feira, julho 19, 2005

ligação

Ainda não o havia colocado - por esquecimento feliz, lia digitando as letras uma por uma, como quem aprende soletrando. Agora será mais simples, não cansarei as mãos nesse trabalho. Deixarei que se ocupem noutras tarefas, a dobar meadas em novelos, a manejar agulhas, tecendo.

sábado, julho 16, 2005

working o.d. (2)


Passam dias, são curtos, tão rápidos; parece ter sido há já tanto tempo que tudo aconteceu. Eu chamo-lhe working o.d., mas podia ser: summer vacation countdown. E ali era onde eu preferia estar: com sol e azul no céu, não o cinza mole da areosa.

domingo, julho 10, 2005

fraga



às vezes isto acontece: de repente abre-se o horizonte sob a luz mais bela do dia, e a respiração suspende-se desse momento; a sensação guarda-se no álbum de impressões, para ser desenterrada anos mais tarde, como o sabor de uma madalena no chá.

quinta-feira, junho 30, 2005

resposta

o que eu estou a fazer contigo
é o mesmo que estás a fazer comigo


e há muito tempo que ninguém me dizia nada tão belo

sexta-feira, junho 24, 2005

solstício

e depois sonho - um sonho confortável e bom, como uma espécie de casa.

segunda-feira, junho 20, 2005

e agora quando te olho -
e páro -

quando te olho e pergunto:
o que é que eu faço aqui

não é de ti que espero a resposta
só quero que um gesto teu a contenha

sexta-feira, junho 17, 2005

au revoir

estou em paris tiro as medidas vai ser a minha cidade

até já agora é tão mais teórico

não será pela distância

nunca o foi

quinta-feira, junho 16, 2005

peixes verdes

Eu sublinhei no livro:
"Os teus olhos são peixes verdes."

Ele pegou no livro, folheou-o.
Ele sublinhou:
"E eu acreditava."

Ele escreveu o nome dele no livro.
Eu nunca mais o deixei.

hoje é dia de bloom

por isso poderia não existir mais nada.

terça-feira, junho 14, 2005

wools



Começo a preparar as lãs para o próximo fim de semana, não quero chegar à noite de sábado com o stock de novelos esgotados. Creio também que estão a chegar ao fim os meus serões de tricot; começo a querer resolver a angústia da tese, e isso, só com trabalho. A vantagem é que, provavelmente, não estarei tão afastada da blogosfera.
Mas, como tantas outras decisões, estas também as deixo adiadas para Setembro.

domingo, junho 12, 2005

moods

A primeira coisa que digo ao encontrar a Alexandra (depois de a cumprimentar, claro), é: "Pois, ando desaparecida da blogosfera..."

TBR pile


Desde que comecei a fazer Bookcrossing que o monte de livros da minha mesa de cabeceira nunca mais foi o mesmo. Sobretudo porque não consigo deixar de comprar livros, com um prazer quase infantil na sua posse. E a Leitura Partilhada não ajudou a fazer diminuir a lista... Na quinta feira aproveitei o fim de tarde para me abastecer na Feira do Livro (a pensar no verão e nos próximos meses de LT). Encontrei ainda a Alexandra e aproveitei para lhe falar do mês dos contos - em que não irá faltar, claro, Tchékhov...

sábado, junho 11, 2005

mingus big band


Já passou uma semana e eu ainda não disse que o melhor da festa em Serralves se escrveu sempre com M...

domingo, maio 29, 2005

neddle case


Mas sobretudo andei às voltas com a minha mãe para fazer este guardador de agulhas a partir do modelo Stitch n' Bitch. As minhas capacidades de costura são péssimas, mas não é difícil. E é uma óptima prenda para knit addicts... Obrigada, mamã!

knitting update


Primeiro consegui terminar a minha nova camisola (que de "To Dye For", como é chamada no original da Stitch n' Bitch passou a Baggy Sweater - mesmo depois de um blocking que resolveu parte do assunto).
Depois foi o encontro de tricot a que finalmente consegui ir (com o bónus de ser na Rota do Chá do Artes em Partes, local a manter). É apenas a segunda vez que vou a um destes encontros, mas saio de lá sempre cheia de ideias. E, sobretudo, contente por não me sentir uma ave rara de agulhas na mão. Desta vez as outras aves eram a Filomena), a Pal, a Avó M. e a Rita.

Coma ajuda da Filomena) lá consegui destrinçar o Fisherman's Rib para esta espécie de xaile de verão. É o que agora me ocupa as horas (para além do Dom Quixote, claro...)

Este fim de semana prolongado deu para tirar as agulhas do saco, para (re)começar a conduzir, para descansar finalmente... e encher a cabeça de novos projectos.

sexta-feira, maio 20, 2005

Uma surpresa quando verifico os novos links de que sou alvo. Espanto, sobretudo quando o silêncio tem dominado - agora tenho a certeza de escrever mais nos cadernos do que em teclados. Uma pergunta, tantas vezes: como é que me encontram? E porquê, porque me escolhem?

quinta-feira, maio 12, 2005

o meu silêncio é

chego a casa exausta, deito-me e - quebro.
(todas as dúvidas e inseguranças acorrem, sempre me deixou assim, o cansaço)
chego a casa exausta, deito-me e quebro, e depois durmo. e acordo e ligo-te, faço-te um não-convite: fosse eu capaz de cozinhar... e falamos sem que nada de importante seja dito; sem que nada se aproxime do que eu sinto. apenas num momento: calamo-nos. e calamo-nos e mantemo-nos assim. já adormeceste? não. mas o silêncio foi o minuto mais eloquente.

domingo, maio 08, 2005

so not fair (2)

Já agora, continuo: porque é que as melhores séries da 2: são sempre às segundas feiras, que é o meu - teu - dia de cinema?

so not fair


Hoje dá um concerto do Keith Jarrett na 2:; logo hoje, que eu tenho que trabalhar...

sexta-feira, maio 06, 2005

seja como for

Depois de dois dias de working o.d. (and counting), não há nada como uma boa surpresa. E estas, tão aparentemente sem razão, são ainda melhores. Por isso, nada de lamentações acerca da diminuição abrupta de prazos ou seja do que for. E entretanto eu vou ali entregar uma cidade em Angola e já venho.

and now for something completely different

Este destaque não deve ser meu. Deve haver por aí outra menina inclinada. Não deve ser meu. Não deve. É meu?

terça-feira, maio 03, 2005

Claro que há uma razão para eu ter escolhido aquela passagem do livro, entre tantas outras.
É o meu baton cor de cereja.
Ou, como tu dizes, esse batonzinho.
Tive uma grande resistência a ler fosse o que fosse de Gonçalo M. Tavares. A aclamação de que foi alvo pela "alta crítica", o número quase exagerado de livros que lança a ritmo impressionante... sei lá qual terá a sido a mais forte razão para não ter vontade de o ler.
Jerusalém chegou-me às mãos quase por acaso, embora sem ser exactamente um acidente; e comecei a lê-lo porque me vi, ao início de uma longa tarde de domingo, sem qualquer outro livro disponível. Ao fim do dia, o encantamento quebrou-se: era a última página. E quebrou-se também mais um pouco da minha teimosia.

cherry lipstick

«A cor introduzida quase microscopicamente na beleza não visava porém o estado de beleza inerte; a cor não queria homenagens, mas sim entusiasmos. Uma beleza que tenha efeitos, não uma beleza para espectadores. E por beleza portadora de efeitos entendia-se o estado que na mulher provoca acções. Acções criadoras, viris.»

Gonçalo M. Tavares, Jerusalém

quarta-feira, abril 27, 2005

knitting again


O tempo para as agulhas tem sido escasso: entre uma cidade em angola e um campo de golfe no ribatejo, entre a rotunda da Areosa e a da Boavista, entre o Quixote e o cinema - e como é preciso também viver - a camisola começada há quase três semanas pouco avançou. Tão pouco tenho conseguido ir aos meetups - não porque não queira, mas porque os quartos sábados de cada mês têm estado sempre demasiado ocupados... ( ao previsto para Maio devo também faltar...)


No entanto, há novidades no meu saco de projectos: desda a Sophie's Bag finalmente feltrada (e com resultados bem melhores do que o French Market Bag, quanto a mim - o segredo está, parece-me, em usar agulhas bastante maiores do que seria necessário) a mais umas mitaines (em ponto de nós, receita do preciosíssimo - e injustamente gozado por fazer parte da minha prateleira de honra - Grande Livro dos Lavores...)


E os meus Stitch n' Bitch enchem-se de post-its - embora eu bem saiba que para tanto não tenho tempo...

terça-feira, abril 26, 2005

now reading



Domingo, 18 horas - hora do conto n'O Navio de Espelhos. Como era o dia seguinte a um feriado, daqueles que não vêm no calendário - o dia do livro - havia bolo de chocolate também. E um contador de histórias muito especial, capaz de fazer embalar os adultos na mesma história que os mais pequenos ouviam. Foi com ele que conversei sobre Tonino Guerra ao balcão, enquanto esperava que o livro me fosse entregue num saco de papel; sobre Tonino e mais meia dúzia de contistas a descobrir.
Nas primeiras sextas feiras de cada mês as portas abrem-se para uma noite de histórias - e desta vez sem ser para crianças; para histórias e sabe-se lá o que mais, que lá dentro está-se como em casa; as flores enfeitam os livros e sai-se sempre um pouco mais rico.

terça-feira, abril 19, 2005

Outras das ligações é a história de Milarepa.
Milarepa era um camponês com uma vida infeliz e cheia de crimes. Ansioso por mudar, atingindo o conhecimento, aproxima-se de um mestre budista. Este, ao ouvir que Milarepa se propunha a pagar qualquer preço pelos seus ensinamentos, fá-lo construir uma série de casas: no final da construção de cada uma, Marpa, o mestre, ordena a sua destruição, alegando razões absurdas. E, de cada vez, Milarepa, ansioso pelo conhecimento, destrói a casa e recomeça-a.
Acaba por se arruinar. Marpa, indiferente ao facto, exige um novo pagamento para o iniciar no caminho da iluminação. Despojado de todos os seus bens, Milarepa tenta finalmente entrar no círculo do mestre, mas este expulsa-o. E Milarepa, desistindo de vez de conseguir que Marpa aceda a ensiná-lo, decide suicidar-se. E então que o mestre se aproxima e o declara pronto para receber os ensinamentos.

"eu digo que o filme te deixou - meditabunda"

Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera
ou uma meditação sobre this mortal coil.

(Será que passamos o Outono e o Inverno a expiar o que fizémos na Primavera e no Verão? E para quê, se no final o ciclo recomeça, apenas porque a vida é mesmo assim? E quem afinal decretou que o Outono é aos trinta anos?)

«On his path to an enlightment of sorts, he must be stripped of everything, especially hope.»
(John Burnside, Introduction to The Sea, The Sea, by Iris Murdoch)

"ou que já o estavas antes - que eu vi."

domingo, abril 17, 2005

quoting (2)

Por um acaso, imediatamente depois de transcrever a citação anterior, fui ler de onde ela era originalmente citada.
O que explica muito. Antes de mais, o fascínio da frase. Depois, parte do sentido. Num livro assombrado pelo teatro e pelo poder e magia (e embriaguez, por que não?) da encenação, onde Shakespeare é referência constante, pergunto-me agora quantos mais fios destes me terão escapado por entre os dedos.

quoting

«For in that sleep of death what dreams may come when we have shuffled off this mortal coil must give us pause.»

Iris Murdoch, The Sea, The Sea

(e se agora eu soubesse pôr música no blogue, seria exactamente This Mortal Coil: You and Your Sister)

terça-feira, abril 12, 2005

eu gosto quando é noite e arrefece

se caminho sob o teu braço deixo o corpo tremer-me

reacerto

Às vezes não é preciso mais do que sol e tempo: Serralves ao domingo de manhã, apesar das trincheiras no jardim; Ribeira no domingo à tarde, até ficar com o nariz vermelho.
Às vezes não é preciso mais do que sol e tempo, uma outra presença para afastar de vez qualquer receio de awkwardness que possa ensombrar o dia
Às vezes não é preciso mais do que sol e tempo - e desejo - para reacertar o passo.

quinta-feira, abril 07, 2005

the working table



Os dias têm estado cinzentos - em demasia. Por isso hoje vou apenas mostrar o estirador onde trabalho, os lápis de cor com que pinto, as canetas de feltro que definem: habitação, equipamentos, serviços, indústria. parque urbano, universidade.
Nem parece trabalho, é quase a brincar que passo os dias. E eles voam, voam, voam.

terça-feira, abril 05, 2005

sábado, abril 02, 2005

não é por pensar muito que as coisas se resolvem

não é por pensar que os sentimentos se afastam - que as lágrimas páram - e tudo volta a ser como um novo dia de primavera

terça-feira, março 29, 2005

fim de semana de páscoa

Recuperar da primavera. (Desde há uns anos para cá, os inícios da primavera têm sido cada vez mais fortes, quase debilitantes; não é nenhuma espécie de alergia, mais um ajustamento do corpo. Acordo pregada à cama e à noite fecho os olhos sem ter lido uma linha.)
Três livros: Vermelho, de Mafalda Ivo Cruz; Sangue do meu Sangue, de Michael Cunningham; e O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald (nunca pensei que fosse uma história de amor.)
Não levei nenhum trabalho, e as mãos ressentiram-se disso. O meu pai fez-me umas agulhas novas - olho-as na mesa e fazem-me sonhar com luvas, cestos, gorros coloridos, objectos nos quais concretizo os meus afectos.

domingo, março 20, 2005

a minha última fotografia

Olho para a máquina, o cabelo caído cobre-me parte do rosto; um sorriso e não apenas nos lábios, tudo o que é visível em mim sorri (e ao sorriso não é alheia a presença ao meu lado, olhando para a máquina também). O meu rosto: sem marcas.
(No dia seguinte começaram a aparecer, e algumas ficarão pra sempre.)
Umas das razões que sempre dei para não furar os lóbulos das orelhas era o desejo de não ter marcas no corpo: marcas que me agarrassem (comprometessem) com um tempo ou desejo qualquer. (Argumento vazio: basta olhar para os meus braços.) Agora a infância passada (e a adolescência, céus, para quando a adoslescência?), o meu rosto finalmente marcado, e nem é tristeza que sinto, antes expectativa, como no abrir de uma nova estação.

sábado, março 19, 2005

happy birthday mr. president



vou coser um vestido ao corpo, vou platinar o cabelo, vou sussurrar-te ao ouvido, vou...

sábado, março 12, 2005

...estou farta de estar em casa cheia de borbulhas...


Depois de ter acabado o cesto (e acho que ainda o vou forrar...) e como ainda me sobrava imensa lã, resolvi entreter-me com mais uma bolsa. Fi-la mais pequena do que no modelo original, mas ficou tão petite... Ainda a vou pôr na máquina, embora correndo o risco de perder um pouco a cor.
E já tenho mais umas mitenes nas agulhas...

chicken pox


A todas as recentes, futuras mães: deixem as crianças ter varicela aos três, quatro, cinco anos, ou lá quando se é que se costumam ter essas coisas; quando se tem varicela aos trinta, se se começou um novo emprego (e mais uma outra coisa, ainda mal definida, que faz deixar de dormir e comer), a tortura chinesa não é tanto por causa das bolinhas por todo o corpo, mas sobretudo pela lentidão com que passam os dias.
Felizmente, tenho as agulhas para me distrair (e para manter as mãos ocupadas). Acabei o french market bag, e depois de uns ciclos na máquina de lavar roupa (e de ter perdido alguma cor) lá ficou pronto. Embora não exactamente como eu o imaginava...

quinta-feira, março 03, 2005

primeiras impressões

Cheguei a horas, apesar de ter saído na véspera do importante primeiro dia de trabalho (Fantasporto+Passos Manuel+[e isto é que não devia ter sido]Gesto);
Senti-me bem recebida - não que estivesse à espera de qualquer outra coisa, mas a satisfação não é por isso menor.
Tenho um estirador e uma secretária. Levei uma caneca verde. Em breve uma jarra com flores.
E ontem puseram-me uma cidadezinha nas mãos.

«por favor, arranjem-me uma máquina de escrever!»

(tantas coisas desde segunda feira - acho que não consigo falar de tudo...)

Como é que se trabalha sem computador? Sem um teclado?
Com um estirador, grandes folhas de papel, marcadores coloridos. Grandes manchas em canetas de feltro. (Vias, eixos, redes.) Com alguma paciência, também. Com sintomas de abstinência de rede.

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

I'll miss the light


Estou muito entusiasmada com o meu novo trabalho - é o que realmente quero fazer, num sítio onde queria muito trabalhar, com pessoas com quem poderei aprender imenso - mas vou sentir saudades aqui do nosso alegre tasco.
Não consigo deixar de me surpreender sempre que descubro um link para a menina inclinada. Mas acho que nenhum me deixou mais feliz do que este. Posso conhecer a Alexandra apenas de passagem (e nem sei se ela já me associou a este outro blogue), mas o Seta Despedida é um dos melhores blogues do mundo. Do meu, pelo menos.