domingo, outubro 23, 2005

domingo, noite

As duas últimas noites foram longas; não digo surpreendentes porque nada houve nelas que mereça tal adjectivo - apenas talvez a sua existência, a repetição do seu início. Deitei-me tarde e ressenti-me disso; no entanto deixei o telemóvel ligado para sentir, ao adormecer, que as prolongava mais um pouco; que lhes permitia a continuação, ainda que apenas não mais do que em fantasia. On / Off não tem nada a ver com aparelhos electrónicos.

domingo, manhã


Acordar com dois dígitos no despertador; fazer um chá e arrumar o meu seven wishes jacket, o meu cherry-lipstick; desembrulhar o novo livro (porque continuo a querer questionar a natureza da minha afeição por certas coisas); lembrar a viagem nocturna no Peugeot 403, o jantar, e ainda o concerto de sexta feira (a minha estreia na sala 1 e uma reconciliação com a música contemporânea); mais do que de descanso o domingo torna-se dia de sonho e fantasia, como que para suportar a aridez dos dias que vêm (hoje que o frio parece ter finalmente chegado).

sábado, outubro 15, 2005

influenza

Comecei a sentir o primeiros sintomas a meio da tarde: o calor nas faces, os olhos vidrados. Um ligeiríssima febre - a recordar-me as febres cerebrais de que padeciam quase todas as heroínas dos romances do século XIX com que me formei, tanto como com os filmes de Hollywood dos anos 40 e 50. Ao fim do dia a cabeça latejava; talvez por não querer incorrer em nenhum pecado mortal, resolvi diagnosticar-me a mim mesma uma pequena gripe e a ela endossar a anterior melancolia.

quinta-feira, outubro 13, 2005

the fountainhead (2)

Saí da sala, calei-me, e calei-me - não sei se será da chuva, mas a melancolia parece ter chegado à cidade...

No entanto não posso dizer com clareza qual a razão pela qual o filme despertou esta vaga sensação; há alguma coerência entre a melancolia em si e a sua fonte difusa.

segunda-feira, outubro 10, 2005

vontade indómita

ele disse:
é o filme mais lindo

eu cozinhei o jantar
pintei as pestanas pus vermelho nos lábios
e deixei-me quieta no sofá

quinta-feira, outubro 06, 2005

a volta ao mundo em azulejos (2)

Tinha entrado no Metro no Marquês, saí em São Bento.

Aqui as cores são diferentes: é a única estação onde isso acontece. As letras com o nome da estação são também em azulejo, e não em aço; e quando se sobe pelas escadas rolantes não vale a pena pensar que o vandalismo já começou: não são riscos, são desenhos de Álvaro Siza que apenas de longe se decifram. Outros desenhos são quase segredos: um azulejo apenas, procura-se em cada pilar.

E já que estava em São Bento subi a outra estação: é que nunca tinha fotografado nenhum dos azulejos do átrio.

segunda-feira, outubro 03, 2005

domingo, outubro 02, 2005

a volta ao mundo em azulejos (1)

Comecei a fotografar azulejos para este grupo do Flickr; a volta ao mundo veio depois. (Mundo, que é como quem diz, os sítios por onde passo de máquina fotográfica na mão.)

Hoje levei a máquina ao Marquês, lugar ainda ocupado pelas redes e tapumes dos trabalhos do Metro. O jardim está intransitável há anos, mas as casas continuam lá, à espera de fotografias.

O Porto é uma óptima cidade para fotografar azulejos; as famosas "casas do século XIX", com as suas estruturas de madeira e fachadas de granito, usavam quase sempre o azulejo como revestimento. É claro que a proliferação de lojas no piso térreo destrui grande parte dos panos de azulejo existentes; mas por vezes ainda se encontram algumas raridades, seja pelas cores, pela utilização de relevos ou simplesmente pelo desenho.


No Marquês não há nenhuma casa que se destaque pela riqueza da cor dos azulejos: verdes e vermelhos, sobretudo. São azulejos rectangulares, com as arestas chanfradas; parece um pormenor sem importância mas na verdade faz toda a diferença.

A arquitectura moderna no Porto soube usar o azulejo; um dos edifícios da Praça (ainda não consegui descobrir a autoria, mas pela estátua na fachada deverá ser de Viana de Lima ou de algum discípulo) utiliza-o, de uma forma bem diferente, claro...

E é claro que a viagem ao Marquês não podia terminar de outra forma senão com uma descida ao subsolo: a novíssima estação de Metro, com os já habituais azulejos que ninguém consegue nomear a cor...

domingo, setembro 25, 2005

dedicação

s.f. acto ou efeito de dedicar ou dedicar-se; afecto extremo; devoção; adesão; qualidade de quem se dedica; dedicatória; consagração; entrega.

sexta-feira, setembro 23, 2005

recomendações de setembro

Procurar as palavras, as frases justas: às coisas, aos afectos, à importância real que têm. Evitar a sobrevalorização do que quer que seja. Evitar a estridência. Não ter medo de não ser ouvida; quando o que conta é o volume, acaba-se num jogo de soma nula; nenhum acto é sustentável. Não recear dizer o que se sente; o que é justo não esconde, como não inflaciona.

quarta-feira, setembro 21, 2005

my crafty family (4)



A minha mãe bordou, o meu pai escreveu as quadras; e este lenço de namorados vai para o Quilt for Katrina...

quarta-feira, setembro 14, 2005

de tanto bater o meu coração parou

e o meu silêncio no regresso confirmava o receio
é já setembro e aparentemente movo-me, o quotidiano instalou-se já, parte dos projectos avança, algumas mudanças já
e no entanto sinto que parte de mim se resguarda e não se move
como se receasse que o coração batesse demais

sábado, setembro 03, 2005


O início de Setembro é sempre assim: vazio, chuvoso, cinzento. É preciso sempre um dia ou dois para saber que o Verão acabou, independentemente do calor que ainda reste. Os dias, que já começaram desde há muito a ser mais curtos, em breve serão uma sucessão de tarefas e trabalhos. Muita noite, que é quando o tempo livre se encontra.

segunda-feira, agosto 22, 2005

dolls


Acabei ontem estes bonecos para levar para a Joana; mas a minha mãe pôs-se a olhar tanto para eles que resolvi fazer-lhe uns gémeos... Por isso vou ter que me agarrar às agulhas.

domingo, agosto 21, 2005

my crafty family (3)


A história dos barcos na família vem de trás; o mar foi smpre ganha-pão na terra onde nasci, e de ambos os lados da família, até à minha geração, há gente de mar. O meu começou a fazer barcos em garrafas com o meu avô - pai da minha mãe - e este aprendeu mais ou menos sozinho. Lembro-me de ir com ele ao Museu ver o exemplar que lá havia; lembro-me de haver um tio-avô distante que os fazia, mas já não sei quem pudesse ser. O primeiro barco ficou pronto ao fim de uns meses, mas teve que ser colocado numa garrafa de ginja, com um gargalo excepcionalmente grande. Ao fim de uns anos, o avô fazia-os em 28 horas... e com uma precisão muito distante daquela que o primeiro deixa adivinhar. Em Ílhavo havia uma Escola de Artesanato, onde eu passava as tardes com os meus avós. A avó Tina experimentava várias cisas, desde as estatuetas de barro à renda de bilros; e eu, arrumados os cadernos, trabalhava também.

A Escola de Artesanato fechou ao fim de alguns anos. Era um projecto interessante, embora na altura tivesse poucas pessoas a trabalhar, ainda menos a aprender. Será que agora poderia ter um outro fim?

sexta-feira, agosto 19, 2005

my crafty family (2)


O meu pai também andou na Escola Industrial. Orgulhosamente intitula-se "serralheiro", e sempre tirou partido dessa formação de base. (Por exemplo, os portões da casa dos meus pais foram feitos por ele...) Há muito tempo que a garagem se transformou num misto de armazém e oficina; de há uns anos para cá, os espaços de trabalho têm invadido a casa, para desespero da minha mãe. Sai de tudo um pouco das bancadas do meu pai; mas brinquedos e barcos são a maioria. Os barcos vêm da tradição familiar: não só os da Ria, mas os da pesca. Era um trabalho a que se dedicaram muitos marinheiros quando o tempo não lhes permitia pescar. Mas essa é uma outra história...