sexta-feira, agosto 19, 2005

my crafty family (2)


O meu pai também andou na Escola Industrial. Orgulhosamente intitula-se "serralheiro", e sempre tirou partido dessa formação de base. (Por exemplo, os portões da casa dos meus pais foram feitos por ele...) Há muito tempo que a garagem se transformou num misto de armazém e oficina; de há uns anos para cá, os espaços de trabalho têm invadido a casa, para desespero da minha mãe. Sai de tudo um pouco das bancadas do meu pai; mas brinquedos e barcos são a maioria. Os barcos vêm da tradição familiar: não só os da Ria, mas os da pesca. Era um trabalho a que se dedicaram muitos marinheiros quando o tempo não lhes permitia pescar. Mas essa é uma outra história...

quarta-feira, agosto 17, 2005

my crafty family (1)


A minha mãe andou na Escola Industrial, onde aprendeu uma série de trabalhos manuais, considerados imprescindíveis para uma dona de casa da altura. E eu sempre a vi a fazer qualquer coisa: camisolas para nós, bordados, crochet... Foi ela que me ensinou a tricotar, que me guiou pelas minhas primeiras camisolas, e que sempre incentivou as minhas incursões pelos bordados.
Começou a fazer bonecos de pano para os meus sobrinhos, e nsso é um pouco como eu: como não tem um omínio completo das questões técnicas, primeiro tenta ser fiel ao modelo, e só depois introduz alterações. Como neste boneco, por exemplo...

terça-feira, agosto 16, 2005

Craftismos

Uma surpresa no Jornal da Tarde de hoje: Poeiras, Trapos e Farrapos e o até agora desconhecida para mim Vento na Praia. Continuo sem saber muito bem o que chamar ao fenómeno crafty: desempregadas qualificadas é que não me parece um bom subtítulo para a reportagem. Mesmo que ache que a criação de peças de autoria, aproveitando o know-how das nossas avós e refazendo o design, pode ser uma boa solução para algum desemprego, acho que é muito mais do que isso. Tem a ver com um cada vez maior distanciamento em realação aos produtos em série que nos oferecem, mas reduzir tudo a uma crítica anti-globalização, ou alter-globalização, também não chega. Assim como não chega dizer que é gratificante ver sair das nossas mãos qualquer coisa de concreto...
Penso que há, sobretudo, um fenómeno de divulgação como nunca houve; divulgação e comunicação, permitindo, como em tantos outros campos, uma inovação e multiplicação muito mais rápida. Mas, na verdade, desde quando é que as mulheres (e, já agora, os homens) se dedicam, com maior ou menor criatividade, a fazer objectos com as suas próprias mãos? Basta olhar com um pouco menos de preconceito para tudo o que as nossas mães e avós fizeram: bordados, camisolas, roupa, bonecas. My crafty family é sobre isso; espero conseguir publcar algumas fotos de família que expliquem melhor de onde venho.

felting


Finalmente uma experiência de feltragem que correu realmente bem - apesar do susto que a minha mãe apanhou quando tirou o trapo da máquina.

segunda-feira, agosto 15, 2005

baking


Raivas (receita dos cadernos da avó Tina)
750 g de farinha
375 g de açucar
6 ovos
90 g de manteiga
canela q.b.
sal
Tira-se uma gema aos seis ovos. Amassa-se tudo, juntando mais farinha até a masa não colar. Fazem-se rolinhos e juntam-se da forma que se quiser. Vai ao forno quente.



Eu ainda junto raspa de um limão. Mas esse é o meu ingrediente secreto...

domingo, agosto 14, 2005

life goes on


No primeiro dia de férias acordei antes das oito da manhã, tricotei uma flor ao pequeno almoço, acabei um novelo em mais um mini FMB, acabei a manga deste wrap, e ainda li umas páginas do guia de Londres.
E hoje, novidades de Helsínquia.

quarta-feira, agosto 10, 2005

bentevi*

Devia ter uns seis ou oito anos; fiz uma asneira de que já não me lembro e, para escapar ao castigo, fugi. Meti-me num comboio à socapa; ia saindo em várias estações para fintar os revisores, retomando a marcha sempre para sul. Foi assim que chegeui ao Algarve. Mas a fome, que ia sendo enganada durante a viagem com a ajuda dos farníes de alguns companheiros, começou a apertar; e resolvi-me a tomar um emprego. A oportunidade surgiu num botequim onde espreitava alguma sobra: um cego, desses que pedem na rua, estava encostado ao balcão, à espera do seu copo de tinto. Reparei que o dono não lhe enchia o copo; e segredei-lhe baixinho: O copo não está cheio! Ele então falou bem alto: Ó senhor! Então quer enganar um cego? Porque não me enche o copo? O dono aproximou-se, e enquanto abria a garrafa disse-lhe que de cego ele tinha pouco. É que há coisas, senhor, que até os cegos vêem!
Tornei-me então moço de cego. Fazia os recados, contava o dinheiro, vivia na rua. Como não quis dizer o meu verdadeiro nome, quando ele me perguntou como me chamava respondi: Bentevi. Já viste uma coisa destas? Tu chamas-te Bentevi; e eu não te posso ver!.
A vida como moço de cego era dura, e eu começava a sentir saudades de casa. Talvez a minha falta não tivesse sido assim tão grave; talvez o castigo fosse mais suave do que a fuga. Comecei então a urdir um plano para me escapar; para além de ir juntando algumas moedas, precisava ainda de me livrar do cego, que nunca me deixava ir para longe.
O plano ganhou asas num domingo, enquanto assistíamos à missa. De tempos a tempos, o meu protector chamava:
- Bentevi!
- Senhor!
- Deixa-te ficar aí.
A certa altura afastei-me, enquanto no púlpito o padre falava dos milagres da igreja. Fiquei junto à porta, pronto a voltar atrás a qualquer momento. Mais uma vez ele deve ter dito: Bentevi!, porque comecei a vê-lo a ficar cada vez mais inquieto com a falta de resposta; até que começou a chamar cada vez mais alto. Bradava já o meu nome, Bentevi!, Bentevi! Ao seu lado, maravilhadas, as beatas ajoelharam:
- Milagre, milagre, o cego vê!

*esta história é dedicada ao meu avô, a quem a ouvi muitas vezes; era a única pessoa neste mundo que me chamava minha flor.

sábado, agosto 06, 2005

boas férias

Eu ainda fico por cá mais uma semana.

não havia minúsculas,

e eu queria pensar que foi por isso que a mensagem me intrigou.
"longe vai o tempo em que não terias dúvidas".
a medida do meu afastamento é que o meu desejo estava longe de o nomear. "Maneirista e tiquenta esta coisa das minúsculas, não?")
mudei-lhe o pronome pessoal e passei a dizer: ele. não são apenas as pessoas que são trituradas no tempo, ao que parece, os sentimentos também. e acabei a noite triste, por não ter novas de helsínquia.

quinta-feira, julho 28, 2005

E o pior é que eu sei mesmo o que é que ela quer dizer. E ainda faltam duas semanas para as férias...

Mini FMB



Estava a fazer este mini saco para oferecer à Winkiemoon, e dei-me conta de que faltam apenas cinco meses até ao Natal. Cinco! Não vou conseguir ricotar as prendas todas que queria!

terça-feira, julho 19, 2005

ligação

Ainda não o havia colocado - por esquecimento feliz, lia digitando as letras uma por uma, como quem aprende soletrando. Agora será mais simples, não cansarei as mãos nesse trabalho. Deixarei que se ocupem noutras tarefas, a dobar meadas em novelos, a manejar agulhas, tecendo.

sábado, julho 16, 2005

working o.d. (2)


Passam dias, são curtos, tão rápidos; parece ter sido há já tanto tempo que tudo aconteceu. Eu chamo-lhe working o.d., mas podia ser: summer vacation countdown. E ali era onde eu preferia estar: com sol e azul no céu, não o cinza mole da areosa.

domingo, julho 10, 2005

fraga



às vezes isto acontece: de repente abre-se o horizonte sob a luz mais bela do dia, e a respiração suspende-se desse momento; a sensação guarda-se no álbum de impressões, para ser desenterrada anos mais tarde, como o sabor de uma madalena no chá.

quinta-feira, junho 30, 2005

resposta

o que eu estou a fazer contigo
é o mesmo que estás a fazer comigo


e há muito tempo que ninguém me dizia nada tão belo

sexta-feira, junho 24, 2005

solstício

e depois sonho - um sonho confortável e bom, como uma espécie de casa.

segunda-feira, junho 20, 2005

e agora quando te olho -
e páro -

quando te olho e pergunto:
o que é que eu faço aqui

não é de ti que espero a resposta
só quero que um gesto teu a contenha

sexta-feira, junho 17, 2005

au revoir

estou em paris tiro as medidas vai ser a minha cidade

até já agora é tão mais teórico

não será pela distância

nunca o foi

quinta-feira, junho 16, 2005

peixes verdes

Eu sublinhei no livro:
"Os teus olhos são peixes verdes."

Ele pegou no livro, folheou-o.
Ele sublinhou:
"E eu acreditava."

Ele escreveu o nome dele no livro.
Eu nunca mais o deixei.

hoje é dia de bloom

por isso poderia não existir mais nada.