Devia ter uns seis ou oito anos; fiz uma asneira de que já não me lembro e, para escapar ao castigo, fugi. Meti-me num comboio à socapa; ia saindo em várias estações para fintar os revisores, retomando a marcha sempre para sul. Foi assim que chegeui ao Algarve. Mas a fome, que ia sendo enganada durante a viagem com a ajuda dos farníes de alguns companheiros, começou a apertar; e resolvi-me a tomar um emprego. A oportunidade surgiu num botequim onde espreitava alguma sobra: um cego, desses que pedem na rua, estava encostado ao balcão, à espera do seu copo de tinto. Reparei que o dono não lhe enchia o copo; e segredei-lhe baixinho: O copo não está cheio! Ele então falou bem alto: Ó senhor! Então quer enganar um cego? Porque não me enche o copo? O dono aproximou-se, e enquanto abria a garrafa disse-lhe que de cego ele tinha pouco. É que há coisas, senhor, que até os cegos vêem!
Tornei-me então moço de cego. Fazia os recados, contava o dinheiro, vivia na rua. Como não quis dizer o meu verdadeiro nome, quando ele me perguntou como me chamava respondi: Bentevi. Já viste uma coisa destas? Tu chamas-te Bentevi; e eu não te posso ver!.
A vida como moço de cego era dura, e eu começava a sentir saudades de casa. Talvez a minha falta não tivesse sido assim tão grave; talvez o castigo fosse mais suave do que a fuga. Comecei então a urdir um plano para me escapar; para além de ir juntando algumas moedas, precisava ainda de me livrar do cego, que nunca me deixava ir para longe.
O plano ganhou asas num domingo, enquanto assistíamos à missa. De tempos a tempos, o meu protector chamava:
- Bentevi!
- Senhor!
- Deixa-te ficar aí.
A certa altura afastei-me, enquanto no púlpito o padre falava dos milagres da igreja. Fiquei junto à porta, pronto a voltar atrás a qualquer momento. Mais uma vez ele deve ter dito: Bentevi!, porque comecei a vê-lo a ficar cada vez mais inquieto com a falta de resposta; até que começou a chamar cada vez mais alto. Bradava já o meu nome, Bentevi!, Bentevi! Ao seu lado, maravilhadas, as beatas ajoelharam:
- Milagre, milagre, o cego vê!
*esta história é dedicada ao meu avô, a quem a ouvi muitas vezes; era a única pessoa neste mundo que me chamava minha flor.
quarta-feira, agosto 10, 2005
sábado, agosto 06, 2005
não havia minúsculas,
e eu queria pensar que foi por isso que a mensagem me intrigou.
"longe vai o tempo em que não terias dúvidas".
a medida do meu afastamento é que o meu desejo estava longe de o nomear. "Maneirista e tiquenta esta coisa das minúsculas, não?")
mudei-lhe o pronome pessoal e passei a dizer: ele. não são apenas as pessoas que são trituradas no tempo, ao que parece, os sentimentos também. e acabei a noite triste, por não ter novas de helsínquia.
"longe vai o tempo em que não terias dúvidas".
a medida do meu afastamento é que o meu desejo estava longe de o nomear. "Maneirista e tiquenta esta coisa das minúsculas, não?")
mudei-lhe o pronome pessoal e passei a dizer: ele. não são apenas as pessoas que são trituradas no tempo, ao que parece, os sentimentos também. e acabei a noite triste, por não ter novas de helsínquia.
quinta-feira, julho 28, 2005
terça-feira, julho 19, 2005
sábado, julho 16, 2005
working o.d. (2)
domingo, julho 10, 2005
fraga
quinta-feira, junho 30, 2005
resposta
o que eu estou a fazer contigo
é o mesmo que estás a fazer comigo
e há muito tempo que ninguém me dizia nada tão belo
é o mesmo que estás a fazer comigo
e há muito tempo que ninguém me dizia nada tão belo
sexta-feira, junho 24, 2005
segunda-feira, junho 20, 2005
sexta-feira, junho 17, 2005
au revoir
estou em paris tiro as medidas vai ser a minha cidade
até já agora é tão mais teórico
não será pela distância
nunca o foi
até já agora é tão mais teórico
não será pela distância
nunca o foi
quinta-feira, junho 16, 2005
peixes verdes
Eu sublinhei no livro:
"Os teus olhos são peixes verdes."
Ele pegou no livro, folheou-o.
Ele sublinhou:
"E eu acreditava."
Ele escreveu o nome dele no livro.
Eu nunca mais o deixei.
"Os teus olhos são peixes verdes."
Ele pegou no livro, folheou-o.
Ele sublinhou:
"E eu acreditava."
Ele escreveu o nome dele no livro.
Eu nunca mais o deixei.
terça-feira, junho 14, 2005
wools
Começo a preparar as lãs para o próximo fim de semana, não quero chegar à noite de sábado com o stock de novelos esgotados. Creio também que estão a chegar ao fim os meus serões de tricot; começo a querer resolver a angústia da tese, e isso, só com trabalho. A vantagem é que, provavelmente, não estarei tão afastada da blogosfera.
Mas, como tantas outras decisões, estas também as deixo adiadas para Setembro.
domingo, junho 12, 2005
TBR pile
Desde que comecei a fazer Bookcrossing que o monte de livros da minha mesa de cabeceira nunca mais foi o mesmo. Sobretudo porque não consigo deixar de comprar livros, com um prazer quase infantil na sua posse. E a Leitura Partilhada não ajudou a fazer diminuir a lista... Na quinta feira aproveitei o fim de tarde para me abastecer na Feira do Livro (a pensar no verão e nos próximos meses de LT). Encontrei ainda a Alexandra e aproveitei para lhe falar do mês dos contos - em que não irá faltar, claro, Tchékhov...
sábado, junho 11, 2005
mingus big band
sexta-feira, junho 10, 2005
Fico contente, ou nem por isso?

Congratulations! You are Susan Mayer, the divorcee
and single mom who will go to extraordinary
lengths for love.
Which Desperate Housewife are you?
brought to you by Quizilla*
*(via Charlotte)
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