quinta-feira, fevereiro 10, 2005

A caminho da faculdade, uma magnólia arranca-me ao silêncio: tudo o resto (as reflexões sobre a preparação e a pouca importância da falta desta, a descoberta serena da comunicação não verbal, a necessidade de fazer - qualquer coisa) emudeceu; lugar apenas apara o branco nada imaculado das flores nas árvores a darem-se ao céu:
chegou finalmente o tempo de andar pelas ruas deslumbrada com a beleza delas.

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

E não, isto não é um texto do Gato Fedorento

Quando os padrinhos propõem que se façam as pazes, normalmente não lhes dão ouvidos, encarando isso como mera formalidade. Amor-próprio e tal, pronto.

É Tchékhov. Ah pois é.

now reading

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

old stories from an old moleskine

último dia no porto, saio do escritório e escolho ir à esplanada; sento-me e leio o jornal, olho em redor mas sobretudo leio
e então olho para o meu lado direito, duas meseas entre mim e ele e eu sorrio
o coração bate-me depressa e eu sorrio
envio-lhe uma mensagem mas ele não vê, faço bolinhas de papel e atiro-lhas mas nenhuma lhe acerta
até que o vejo pegar no telemóvel e então espero
o coração bate-me
e vejo-o olhar em volta até me ver
levanta-se e sorri e senta-se na minha frente, atraente bonito como sempre
e falamos de nada, conto-lhe vagamente pequenas coisas soltas, e ele diz-me "mandei-te um email"
e ele diz-me "comprei-te um livro"
e ele olha para longe e diz "vem ali a minha namorada" e eu não digo
nada
nem sei o que faço se sorrio
sei que continuo conversando
e que tenho que ir
e levanto-me
vou de férias e só volto no fim do mês, ele pergunta-me se eu ainda passo pelo porto entretanto
cumprimentamo-nos e eu digo "fica bem" e afasto-me
eu afasto-me
ponho os óculos escuros e não olho para trás
(sei muito bem que não quero vê-la)
eu afasto-me
há tristeza mas não desespero, como se tudo o que eu escrevi tivesse finalmente tomado a sua forma
mais ou menos definitiva
e pela primeira vez em muito tempo não penso que gostaria de ter dito ou feito qualquer outra coisa
pela primeira vez em muito tempo não desejo ardentemente que tivesse sido de outro modo
inestimavelmente sinto-me bem comigo mesma

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

café


a sensação – que já não é de hoje – de saber finalmente o que quero – de nunca ter estado tão certa acerca do sinto – parece ter-se imobilizado (cristalizado?) finalmente
(a ansiedade que não sinto como uma das suas expressões; falta de ansiedade, falta de pressa, e ainda assim desejo)

acho que nesse dia o teria beijado

(mas nada levou a isso, apenas o meu desejo; e não importa)
telefonei-lhe e saímos, bebemos um copo e conversámos; sempre coisas sérias e adultas e exteriores a nós mesmos; trouxe-me a casa e eu inclinei-me para ele no banco do carro, o seu braço levantado sobre os meus ombros, um beijo na face e
traz-me uma bola de neve

definitivamente acho que nesse dia o teria beijado

(música: good friday, cocorosie)

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

cinq fois deux


ou valerá mesmo a pena começar o que quer que seja? Independentemente do final da história, valerá a pena vivê-la? Sempre? Se não, quando? Às vezes penso se a vida não será mesmo um jogo viciado no qual não se pode ganhar. Mas creio que não; que não é um jogo nem qualquer outra coisa, é vida, apenas.
Quanto ao filme – muito bom, triste. A forma como é contada a história – do fim para o início, como em Irreversible - dá um toque de perda a tudo o resto. A violência de Gilles – explícita quase imediatamente – vai sendo revelada a passo e passo. Os olhos de Marion – a forma como ela fecha decididamente a porta – acompanham mesmo – ou sobretudo – os momentos felizes.

e depois de tudo, pergunto-me: valeu, mesmo assim, a pena?

amostra


Um novo projecto (porque o meu sobrinho também vai ter um gorro).

e ontem - uma cerveja no Rivoli - para exacerbar as saudades - para ter mais uma vez a certeza - como nunca antes - do que sinto

quarta-feira, fevereiro 02, 2005


O gorro da minha sobrinha está pronto; agora é preciso ver se lhe serve - e se ela gosta.

Entretanto, tenho que pegar em projectos mais importantes... e bem mais difíceis. As coisas concretas - cuja explicação já ensaio, embora apenas intimamente - terão que se manter como fundo e não como forma. Na transição para o paradigma do desenvolviemnto sustentável, portanto...

ainda 2046

2046 é agora uma sucessão de imagens – espécie de mosaico composto por fragmentos belos brilhantes coloridos, lanterna de sombras, novelo de fios soltos para se começar a puxar
não, não estive perto das lágrimas (como sempre em In the mood for love); no entanto 2046 consegue ser um filme bem mais triste do que esse fantasma que sempre paira – essa pergunta que é: teria alguma destas histórias acontecido se
As imagens movem-se, giram, compõem novos desenhos. Estaria eu sempre consciente da presença ao meu lado? Ter-me-ei perguntado se ele sofria? Se se revia? Se – que – nome recordava?
E eu?
Quando leio Proust, que nome projecto em Albertine?

segunda-feira, janeiro 31, 2005

E além disso

tive o melhor domingo dos últimos tempos - mesmo sem Amarcord.

(Houve mar e sol e praia - e sobretudo - m.)

Estão prontas


mesmo a tempo do aniversário da Flora.

sexta-feira, janeiro 28, 2005


Para além da luz (e da motivação), trouxe ainda um monte de sacos que já foram feitos em fatias e quase todos crochetados no meu cesto...

a luz


Ontem fui a Aveiro; no meu saco de projectos há mais um, ainda muito recente e abstracto.
Como sempre, nos últimos tempos, venho de lá com um certo desejo de regressar. Endosso-o à luz: não a há como na Ria, apesar de eu nunca o ter visto quando vivia por lá.

quarta-feira, janeiro 26, 2005

o cesto



Vi-o pela primeira vez na Ervilha Cor de Rosa (que já se tornou de visita diária e obrigatória, tal é a minha admiração pelas peças que a Rosa faz e pela generosidade com que as partilha), mas só depois do encontro de sábado deitei mãos à obra - e agora é o meu trabalho preferido. Já gastei os sacos todos que tinha em casa - inclusivé os sacos das cenouras - e pouco mais tenho do que o fundo.
Estou a utilizar uma agulha de crochet de 5,5mm (era a única que tinha em casa) e, como não me socorri imediatamente do preciosíssimo Grande Livro dos Lavores, um ponto híbrido da malha cerrada e a meia bride. Nesta fotografia o saco tinha dois dias de trabalho - e agora, desde que descobri esta técnica de novelar (via pal), o trabalho está muito mais avançado.
Haja sacos.

um saco de projectos



o gorro, o cesto, as mitaines

Acho que estou a ficar viciada nestes crafts. (Ontem, por exemplo, em vez de ler estive a aumentar o meu saco feito de sacos.) Sinto cada vez mais vontade de me dedicar a coisas concretas - e manufacturá-las, também. Terei perdido demasiado tempo com abstracções? Talvez não. Talvez seja apenas uma evolução natural - em direcção a quê?

I knit, you knit (2)

Quando contei à minha mãe onde tinha passado parte da tarde de sábado, ela disse que se lembra ainda de ver as senhoras a juntarem-se nos cafés para conversar enquanto se distraiam com um tricot ou um crochet. Eu lembro-me de ver a minha mãe a crochetar na praia, juntamente com as amigas. E, para mim, já não é o mesmo estar em casa a tricotar em frente à televisão, por exemplo; falta-me a companhia e a conversa... Se eu perdesse MESMO a vergonha, passava a levar umas agulhas para o café sempre.