O texto é de tal forma que rico que serve múltiplas leituras - descobri-las é um dos prazeres que proporciona - desde o imediatismo do riso (e até as razões para este podem ser desmontadas!) ao choque face à violência - quando esta é explícita. E o título? É apenas a ladainha? Ou há aqui também outras camadas?
Quem tem medo de viver no fio da navalha? Quem tem medo da loucura?
sexta-feira, outubro 22, 2004
quinta-feira, outubro 21, 2004
E agora, o filme?
Também nunca vi o filme com Richard Burton e Elizabeth Taylor. Agora esperarei algum tempo antes de o procurar; o melhor é deixar aquietar primeiro a sensação de vida que a peça deixou.
Eu não acredito em ti. Já não acredito em ti. Nunca mais.
As minhas expectativas eram altas, depois de ter lido coisas como esta.
Mas mesmo assim não saí defraudada: Quem tem medo de Virginia Woolf é de facto a melhor peça que tive o privilégio de ver nos últimos tempos. Não só pelo texto (que não conhecia e que é, de facto, magnífico, pela crueza com que nos mostra o campo de batalha em que se tornou uma relação, pela inteligência dos diálogos, pela intensidade e pelo dinamismo com que se ucedem as emoções e os registos), mas pela interpretação fabulosa: António Capelo e Glória Férias têm o dom de incorporar as personagens e assim as tornar credíveis ao fim de duas falas. Depois, tudo o resto, da iluminação ao cenário. (E Sandra Salomé, que torna Honey capaz de ombrear com o gigantismo de Martha e George.) O Teatro do Bolhão inicia com esta peça um ciclo de espectáculos com textos de pendor realista, e eu não falharei nenhum. E tudo porque o teatro assim faz acontecer magia sob o nosso olhar.
Mas mesmo assim não saí defraudada: Quem tem medo de Virginia Woolf é de facto a melhor peça que tive o privilégio de ver nos últimos tempos. Não só pelo texto (que não conhecia e que é, de facto, magnífico, pela crueza com que nos mostra o campo de batalha em que se tornou uma relação, pela inteligência dos diálogos, pela intensidade e pelo dinamismo com que se ucedem as emoções e os registos), mas pela interpretação fabulosa: António Capelo e Glória Férias têm o dom de incorporar as personagens e assim as tornar credíveis ao fim de duas falas. Depois, tudo o resto, da iluminação ao cenário. (E Sandra Salomé, que torna Honey capaz de ombrear com o gigantismo de Martha e George.) O Teatro do Bolhão inicia com esta peça um ciclo de espectáculos com textos de pendor realista, e eu não falharei nenhum. E tudo porque o teatro assim faz acontecer magia sob o nosso olhar.
quarta-feira, outubro 20, 2004
Finalmente: arribei?
Passei hoje de manhã pela faculdade, na minha ânsia de reunir informação e material para a tese. Ou, antes, na minha ânsia de fingir que faço, que é maior do que a primeira e por isso tem prioridade. Mas, ânsias à parte, resolvi passar pelo pavilhão onde dá aulas uma antiga professora, aquela que sempre me apoiou apesar da minha absoluta e evidente inépcia (ou inércia). Sorriu-me quando entrei, falou com alegria do painel da Anuária, perguntou-me se tinha trabalho, e disse-me que lhe falasse depois da tese, para ela me ajudar. E despediu-se com esta frase: Fiquei contente por ver o teu nome lá, pensei: que bom, esta rapariga finalmente arribou.
terça-feira, outubro 19, 2004
Pareceu-lhe que de agora em diante ele não precisava mais ter voz de homem nem procurar agir como homem: ele o era.
Clarice Lispector, A Maçã no Escuro
E se os casacos que compro, se o meu (mais ou menos) súbito interesse pelas roupas que uso, se o meu desejo de me mostrar - mulher - não corresponderem a mim mesma, isto é, ao que realmente sou e tive tantas vezes medo de ser e mostrar, mas antes ao desejo de imitar a ideia que em mim faço do que é ser mulher?
(Na realidade, enquanto escrevo, penso que talvez a distinção não seja assim tão importante. O desejo mantém-se, lânguido apesar da chuva.)
Clarice Lispector, A Maçã no Escuro
E se os casacos que compro, se o meu (mais ou menos) súbito interesse pelas roupas que uso, se o meu desejo de me mostrar - mulher - não corresponderem a mim mesma, isto é, ao que realmente sou e tive tantas vezes medo de ser e mostrar, mas antes ao desejo de imitar a ideia que em mim faço do que é ser mulher?
(Na realidade, enquanto escrevo, penso que talvez a distinção não seja assim tão importante. O desejo mantém-se, lânguido apesar da chuva.)
domingo, outubro 17, 2004
Domingo
A manhã meia cinzenta, metade da cidade fechada, Serralves completamente fora do meu alcançe: onde procurar refúgio? Domingos arrastam-se lamentavelmente vazios. Amanhã é dia de imitar novamente a rotina, fingir-me ocupada em mil tarefas, atravessar o passeio de cabeça mais ou menos erguida, conforme a disposição e os olhos que me espreitem. Sorrir-lhe, talvez. Se sorrir não for, claro está, comprometer-me demasiado com o desconhecido. Se sorrir for apenas brincar aos crescidos.
sexta-feira, outubro 15, 2004
O dia animado
Ontem foi um dia animado: passeei no Porto em busca de compras e descobri-as na Retroparadise. Não foram apenas as compras que descobri, porém; nem apenas o vintage, ou o casaco preto a assentar-me como se tivesse sido feito para mim. Foi olhar-me sem tanto receio de parecer demasiado feminina, demasiado coquette, demasiado... não sei bem, talvez sedutora. Assumidamente com o desejo de seduzir.
E é claro que casacos são apenas manifestações visíveis desse desejo. Outra, bem mais impalpável, foi subir e descer as escadas do prédio, passando mais ou menos ostensivamente em frente da loja onde trabalha o vendedor mais giro que eu já vi. (Com resultado zero, diga-se; acabei então por tirar quase toda a roupa do armário e experimentá-la em novas variações, como uma criança com um brinquedo novo.)
E é claro que casacos são apenas manifestações visíveis desse desejo. Outra, bem mais impalpável, foi subir e descer as escadas do prédio, passando mais ou menos ostensivamente em frente da loja onde trabalha o vendedor mais giro que eu já vi. (Com resultado zero, diga-se; acabei então por tirar quase toda a roupa do armário e experimentá-la em novas variações, como uma criança com um brinquedo novo.)
quinta-feira, outubro 14, 2004
Vale a pena?
Escrever vale a pena? Porque se escreve?
Porque é que eu escrevo?
Reconhecimento, fama glória?
O que tenho eu para dizer?
Dizer a quem?
Não é melhor deixar-me ficar pelo caderno?
Porque é que eu escrevo?
Reconhecimento, fama glória?
O que tenho eu para dizer?
Dizer a quem?
Não é melhor deixar-me ficar pelo caderno?
quarta-feira, julho 21, 2004
I love Canidelo
Adoro-o adoro-o adoro-o, principalmente agora que o trabalho está (quase) acabado e apresentado, principalmente agora que o esforço foi recompensado com as palavras calorosas do professor no final, principalmente agora que posso sentar-me a saborear, dormir, ler.
Bem sei que por pouco tempo, que a escolha do tema para a tese começa a roer-me os tornozelos como um cachorro traquinas. Mas por agora não quero mais do que uma manta no Parque da Cidade, deitar-me e olhar o céu.
Ainda turquesa.
Bem sei que por pouco tempo, que a escolha do tema para a tese começa a roer-me os tornozelos como um cachorro traquinas. Mas por agora não quero mais do que uma manta no Parque da Cidade, deitar-me e olhar o céu.
Ainda turquesa.
segunda-feira, julho 19, 2004
Entrega de Seminário -1
Impossível escrever STOP atenção concentrada até amanhã STOP prometo mudar a cor do template STOP over and out.
sábado, julho 17, 2004
Divisa de felicidade
«Presença e distância em relação ao mundo.»
Toma. Apareceram-me com um teste do género «Qual a sua perspectiva relativamente à felicidade neste momento», que contava com quatro grandes famílias, a saber: felicidade de acção, felicidade de satisfação, felicidade de domínio, felicidade de serenidade. Respectivamente: 2, 2, 1, 5. Daí a «presença e distância em relação ao mundo». Ou, trocando por miúdos: não me chateiem com comezinhices que eu quero lá saber. Estou na minha onda zen e bem podem matar-se uns aos outros, quero lá saber se no autocarro haja quem cante, quem grite, quem discuta; estou no mundo mas não lhe pertenço, perspectiva terrível e assustadora. Já houve alturas em que quis ser outra coisa, ser assertiva e batalhadora; já houve alturas também em que o fui muito menos. Cada um é como é e não como deseja ser, mesmo que os desejos façam parte do que se é.
Bolas. Até nas reacções sou serena.
Toma. Apareceram-me com um teste do género «Qual a sua perspectiva relativamente à felicidade neste momento», que contava com quatro grandes famílias, a saber: felicidade de acção, felicidade de satisfação, felicidade de domínio, felicidade de serenidade. Respectivamente: 2, 2, 1, 5. Daí a «presença e distância em relação ao mundo». Ou, trocando por miúdos: não me chateiem com comezinhices que eu quero lá saber. Estou na minha onda zen e bem podem matar-se uns aos outros, quero lá saber se no autocarro haja quem cante, quem grite, quem discuta; estou no mundo mas não lhe pertenço, perspectiva terrível e assustadora. Já houve alturas em que quis ser outra coisa, ser assertiva e batalhadora; já houve alturas também em que o fui muito menos. Cada um é como é e não como deseja ser, mesmo que os desejos façam parte do que se é.
Bolas. Até nas reacções sou serena.
sexta-feira, julho 09, 2004
You are an SRCF--Sober Rational Constructive Follower. This makes you a White House staffer. You are a tremendous asset to any employer, cool under pressure, productive, and a great communicator. You feel the need to right wrongs, take up slack, mediate disputes and keep the peace. This comes from a secret fear that business can't go on without you--or worse, that it can.
If you have a weakness, it is your inability to say "no." While your peers respect you, they find it difficult to resist taking advantage of your positive attitude and eagerness to take on work. You depend on a good manager to keep you from sinking under the weight and burning out.
If you have a weakness, it is your inability to say "no." While your peers respect you, they find it difficult to resist taking advantage of your positive attitude and eagerness to take on work. You depend on a good manager to keep you from sinking under the weight and burning out.
quarta-feira, maio 19, 2004
minúscula n.2
sonhei contigo um destes dias, mesmo antes de acordar. não terá sido bem um sonho, talvez mais uma sensação; acabava de acordar, estavas deitado sobre o meu corpo, a face semi-escondida na curva do ombro esquerdo
eu rodeava com o braço direito o teu tronco, sentia a suavidade da tua pele clara
a luz delicada da manhã começava a tomar conta do quarto
eu rodeava com o braço direito o teu tronco, sentia a suavidade da tua pele clara
a luz delicada da manhã começava a tomar conta do quarto
segunda-feira, maio 17, 2004
minúscula n.1
sonhei contigo
acordei a sonhar contigo
era um sonho sem luz, o de hoje (ao contrário dos sonhos em que habitualmente figuras, em que a luz - a cor, o tom, a intensidade - é tão importante como qualquer outra coisa)
era um sonho onde tudo se passava no interior de casas, em corredores, junto a portas,
em que havia um nó que era um beijo, e depois tudo se alterava,
lembrei-me de ti, acordei a sonhar contigo.
acordei a sonhar contigo
era um sonho sem luz, o de hoje (ao contrário dos sonhos em que habitualmente figuras, em que a luz - a cor, o tom, a intensidade - é tão importante como qualquer outra coisa)
era um sonho onde tudo se passava no interior de casas, em corredores, junto a portas,
em que havia um nó que era um beijo, e depois tudo se alterava,
lembrei-me de ti, acordei a sonhar contigo.
Calor
Tarde turquesa
Quarenta graus
Talvez porque você não esteja
tudo lateja
Tarde sem nuvem
Cincoenta graus
Talvez por sua ausência
tudo derreta
Noite sem ninguém
Nada se mexe
Eu sonho nosso amor a sério
E você em outro hemisfério
Enquanto tudo derrete
Enquanto tudo derrete
Enquanto tudo parece
Derreter
Adriana Calcanhotto, Cantada
Quarenta graus
Talvez porque você não esteja
tudo lateja
Tarde sem nuvem
Cincoenta graus
Talvez por sua ausência
tudo derreta
Noite sem ninguém
Nada se mexe
Eu sonho nosso amor a sério
E você em outro hemisfério
Enquanto tudo derrete
Enquanto tudo derrete
Enquanto tudo parece
Derreter
Adriana Calcanhotto, Cantada
quinta-feira, maio 13, 2004
Desconcerto
Ao mesmo tempo que corrompemos a ideia de feminilidade, é nela ainda que vivemos...
Por isso não se espere mais do que isto, um sentimento desconcertado por parte de um género (mais do que intimidação, talvez seja uma espécie de surpresa que o outro hemisfério sente), um sentimento desajustado por parte do outro (por cá, pelo contrário, é a incerteza sobre a identidade que reina).
Claro que poderão ser muitas as vozes que clamem o contrário, que se proclamem fantasticamente adaptadas aos tempos que vivemos. Pela minha parte, oscilo indefinida entre vários campos, a identidade construída ao sabor da disposição dos dias, dos modelos que provisoriamente adopto e admiro. Qualquer generalização é sempre redutora, também o sei. Mas é necessário a espaços adoptar epígrafes que norteiem parte do caminho.
Por isso não se espere mais do que isto, um sentimento desconcertado por parte de um género (mais do que intimidação, talvez seja uma espécie de surpresa que o outro hemisfério sente), um sentimento desajustado por parte do outro (por cá, pelo contrário, é a incerteza sobre a identidade que reina).
Claro que poderão ser muitas as vozes que clamem o contrário, que se proclamem fantasticamente adaptadas aos tempos que vivemos. Pela minha parte, oscilo indefinida entre vários campos, a identidade construída ao sabor da disposição dos dias, dos modelos que provisoriamente adopto e admiro. Qualquer generalização é sempre redutora, também o sei. Mas é necessário a espaços adoptar epígrafes que norteiem parte do caminho.
quarta-feira, maio 12, 2004
Motivação (2)
Pelos vistos, não fui a única. Ainda bem. Já suspeitava de um caso extremo de alucinações matinais.
Motivação
Este súbito regresso pode ter sido provocado pela notícia que ouvi com assombro hoje, acabada de acordar: Anacom quer acabar com blogs.
Faz sentido.
Faz sentido.
E agora, para onde?
Estive longe, por muitas e diversas razões, a mais irrelevante das quais não será a falta de sentido, de identidade, que vejo neste espaço. Durante muito tempo tive um blog meu, privado, que não era para ser lido; era um registo apenas, como se para manter uma memória fosse obrigada a registá-la. Neste momento não sei sequer se este espaço é ou não para ser lido, pelo que me deixo estar numa indefinição açucarada. Deveria ser um espaço de liberdade - mas eu não sei ainda exercê-la, presa que estou das opiniões alheias; ou da minha fantasia das opiniões alheias, o que, para o caso, pouca diferença faz...
Até já, então. Talvez a interrupção não seja tão longa.
Até já, então. Talvez a interrupção não seja tão longa.
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